Terminando a série Mentes corrompidas chegamos à pergunta central: existe alguma forma de deter a corrupção? Nós já vimos que o poder corrompe, que conseguimos nos convencer que não há nada errado, que o dinheiro pode nos tornar egoístas e que o cérebro influencia nosso comportamento dependendo do quanto leva os outros em consideração. Mas será que a análise dos fatores individuais que levam à corrupção poderiam nos ajudar a combatê-la?

Um dos pesquisadores mais produtivos no tema é o economista comportamental Dan Ariely, da Universidade de Duke. Em suas divertidas experiências sobre desonestidade, muitas delas compiladas no livro A mais pura verdade sobre a desonestidade (Editora Elsevier, 2012), ele descobriu que quase todo mundo rouba um pouco quando tem oportunidade. No entanto, seja por uma questão de consciência ou pelo que for, a maioria se auto-impõe limites, roubando o suficiente para ter vantagem mas não tanto que se sita um bandido. São raros os que roubam tudo o que podem. O problema disso, no entanto, é que como muitas pessoas desviam um pouquinho, os prejuízos que esses pequenos desvios causam quando somados é maior do que as grandes trapaças. Para ilustrar na prática: a escandalosa corrupção oficial custa ao país algo em torno de oitenta e cinco bilhões de reais ao ano. Uma cifra indecente, para dizer o mínimo, e todos condenamos com razão esses políticos que roubam tanto. Mas apenas com sonegação de impostos, cometida no varejo pelos cidadãos e empresários, perdemos anualmente mais de quinhentos bilhões de reais. Segundo o sonegômetro, instrumento dos Procuradores da Fazenda Nacional, só nesses primeiros três meses de 2016 o Brasil já perdeu 125 bilhões de reais, o que dá uma média de menos de R$700,00 por brasileiro. Cada um rouba um pouquinho e juntos desviamos mais do que todos os larápios do governo.

Reunindo o que descobriu sobre essa corrupção cotidiana, individual, Ariely nos apresenta os principais fatores que aumentam ou reduzem a desonestidade. A criatividade, a racionalização, a observação de outros sendo desonestos, a existência de uma cultura repleta de exemplos ruins pioram nosso comportamento. Já se temos supervisão, se os comportamentos são transparentes, se somos levados a lembrar da importância da lisura, se nos comprometemos a agir corretamente, tendemos a ser mais honestos.

Baseado em tais dados, e fiel à sua área de estudo, junto com outros pesquisadores ele propôs num artigo de 2015 três medidas comportamentais que ajudariam a reduzir a corrupção.

1 – Ressaltar critérios éticos: quando somos forçados a refletir eticamente em nossas atitudes, a margem de manobra para racionalizar os comportamentos e justificar a desonestidade diminui. Só de pedir para as pessoas tentarem dizer os dez mandamentos, por exemplo, o nível de trapaça caiu num dos experimentos (mesmo que ninguém conseguisse lembrar de todos). Cercar-nos de lembretes sobre a honestidade, seja nos papeis que preenchemos, nos lugares em que tomamos decisões, nos inclinaria a ser mais corretos.

2 – Dar visibilidade: ser observado, ter as atitudes expostas publicamente, reduz muito o risco de ceder à tentação do ganho fácil e ilítico. Câmeras, espelhos, e até mesmo olhos desenhados reduzem a desonestidade. Mecanismos que nos lembrem que estamos sendo identificados em nossas ações poderiam ser eficazes, portanto.

3 – Engajar e comprometer: ao prometer que agiremos honestamente nós burlamos menos as regras. Não toleramos aquela dissonância cognitiva sobre a qual já conversamos; assim, uma vez que afirmamos que faremos algo – e se não for possível mais desdizer – é grande a chance de fazermos de fato, para manter a coerência e evitar a incômoda dissonância. Uma corretora de seguros americana mudou o local de assinatura de seus formulários, colocando no início do documento (ao invés de no final) a famosa frase “declaro que são verdadeiras as informações prestadas”; só essa inversão já fez com que os índices de fraude despencassem.

No fim das contas, como sempre, temos boas e más notícias. Com relação aos grandes golpistas, a má notícia é que eles são profissionais, difíceis de coibir. A boa é que estão em menor número. Já sobre os pequenos contraventores que vivem dentro de nós, é fato que, somados, eles causam mais prejuízos do que os vilões nacionais. Por outro lado parece que é mais fácil de domesticá-los.

Existem fatores sociais, culturais, econômicos, históricos e políticos associados à corrupção – eles variam de país para país, determinando o nível da bandalheira local. Nosso país traz uma confluência especialmente infeliz desses fatores, colocando-nos na 76a colocação como país mais corrupto do mundo.  Mas encerro essa série Mentes corrompidas com a convicção de que se quisermos combater mesmo esse problema para fazer do Brasil um lugar melhor, não podemos mais ignorar os fatores individuais, que estão presentes não só nos políticos que estampam as manchetes policiais, mas dentro de cada um de nós.

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Ayal, S., Gino, F., Barkan, R., & Ariely, D. (2015). Three Principles to REVISE People’s Unethical Behavior Perspectives on Psychological Science, 10 (6), 738-741 DOI: 10.1177/1745691615598512