A Psiquiatria e a pilantragem (política ou não) há tempos aparecem juntas nas manchetes. Desde a antiguidade é uma estratégia manjada alegar insanidade quando não há outra saída: Ulisses se fingiu de louco na Odisseia para tentar fugir da guerra de Troia, Davi fez o mesmo para tentar escapar do rei Saul. Como a doença mental é essencialmente subjetiva, não existem exames objetivos que a comprovem, é mais fácil simular a loucura do que uma fratura, por exemplo (ou bem menos doloroso).

Por outro lado, quem nunca foi preso após ter a vida escrutinada pela polícia diante dos olhos de um país inteiro por conta dos maus feitos que aprontou, provavelmente terá dificuldade de compreender o que está passando Nestor Cerveró. O encarceramento está entre os eventos mais estressantes que existem – não por acaso a incidência de transtornos ligados à depressão e ansiedade são muito comuns dentro dos presídios. Segundo sua psicóloga, Cerveró faz tratamento psicológico há três anos, com o diagnóstico genérico de ansiedade, atestado por ela. Se já soubesse que a casa estava para cair, o que não é impossível, é bastante coerente que ele andasse ansioso. Ainda de acordo com sua psicóloga, desde abril de 2014 – um mês após a deflagração da Operação Lava Jato que culminaria com sua prisão – ele apresenta também sintomas depressivos. Novamente, bastante lógico – quando não havia mais escapatória, o medo deu lugar à angústia. Finalmente, diz o atestado que agora Cerveró tem critérios para o diagnóstico de depressão maior, provavelmente desde que foi preso – o que também faz sentido. Depressão maior é uma categoria diagnóstica que procura diferenciar a tristeza comum, o luto ou a angústia da vida do transtorno depressivo, da depressão clínica propriamente dita. Na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) o quadro inclui “rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. (…) alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração(…) diminuição da auto-estima e da autoconfiança e freqüentemente idéias de culpabilidade e ou de indignidade”. No caso, alguns desse sintomas são até desejáveis.

Mas aí entra o advogado e diz que ele tem uma “doença psicótica”, e infelizmente é isso que vai parar nas machetes. Psicose é uma condição em que existe uma perda de contato com a realidade, quando ocorrem delírios, alucinações, num quadro geralmente bastante grave. Nem a psicóloga disse isso, nem parece ser o caso de Cerveró. Então de onde o advogado tirou tal diagnóstico? Estaria tentando aumentar a gravidade da doença de seu cliente, à la Ulisses ou Davi? Seria pilantragem? Embora sedutora, essa hipótese não se sustenta na leitura da defesa, revelada pelo repórter Fausto Macedo. Lá pelas tantas o defensor mostra tratar-se apenas de ignorância, quando diz que “o tratamento psicótico de custodiados tem previsão no artigo 41”. Está aí: “psicótico” é usado como sinônimo de “psicológico” pelo ilustre causídico.

Seria cômico se não fosse trágico. Trágico para Cerveró, que estando provavelmente em sofrimento psíquico real, por conta de tal equívoco pode facilmente ser tomado por simulador. Mas mais trágico ainda para os verdadeiros pacientes psicóticos, que mais uma vez só vêem seu diagnóstico tratado nas páginas policiais.