Estão faltando três informações fundamentais no debate sobre a Cracolândia.

O cérebro faz o que pode para nos manter vivos e reproduzindo enquanto conseguir. Dedica-se a tal ponto a essa tarefa que, tudo o que contribui para nossa sobrevivência e reprodução, ele marca como relevante e nos induz a fazer de novo. A dopamina, erroneamente chamada de hormônio do amor, é o neurotransmissor utilizado para isso: ela é liberada em determinadas regiões cerebrais, conhecidas como centros de recompensa, nos levando a querer repetir coisas como comer e fazer sexo. Tudo o que sentimos ser recompensador de alguma forma pode ser marcado. E repetido.

Nos anos 1950, cientistas desenvolveram técnicas para estimular diretamente essas áreas cerebrais com eletrodos implantados em ratos. Descobriram assim que, quando as próprias cobaias eram capazes de acionar esses eletrodos, elas abandonavam tudo o que estavam fazendo para ficar apertando as alavancas que estimulavam aquelas áreas. Tudo mesmo: deixavam de comer, de tomar água. Machos ignoravam fêmeas no cio. Estas negligenciavam crias recém-nascidas. Os bichos chegaram a apertar a alavanca 7 mil vezes por hora. Não havia recompensas naturais que se comparassem à descarga artificialmente alta de dopamina, tornando o comportamento compulsivo. Efeito similar ao obtido com a cocaína e seus derivados.

Primeira informação: o crack é como uma dessas alavancas.

Duas décadas depois, contudo, outro experimento questionou os aspectos biológicos das dependências, ressaltando a importância dos fatores psicossociais. O estudo da adição era feito engaiolando e isolando cobaias a quem eram oferecidas diferentes drogas, testando quais levavam ao uso compulsivo. Um psicólogo canadense imaginou, então, que se ele fosse confinado em uma gaiola, sozinho e sem nada para fazer também, usaria todos os psicotrópicos que lhe oferecessem. Criou então um ambiente espaçoso para os ratos, agradável, com comida, água, labirintos, obstáculos, onde machos e fêmeas conviviam livremente. Viu que, nesse ambiente, os bichos não usavam drogas quando elas eram oferecidas, e muitos deixavam de usá-las ao serem transferidos de gaiolas para esse parque. Embora os seus resultados até hoje não sejam unânimes, ele mostrou que em grande medida condições hostis, sociais e psicológicas estão por trás das dependências.

Segunda informação: as cracolândias são como as gaiolas.

São informações fundamentais para compreender porque algumas pessoas chegam ao ponto de abandonar tudo o que têm – família, filhos, emprego –, chegando a situações desumanas. A descarga de dopamina da cocaína não tem paralelo natural, criando uma recompensa artificialmente alta e levando a uma compulsão quase impossível de resistir. Perde-se o controle progressivamente, gastando cada vez mais tempo com a droga e cada vez menos com o restante da vida. E quando, por razões diversas, alguns acabam numa cracolândia, cercados de privações, correm o risco de ficar absolutamente incapazes de reagir. Mesmo que não estejam psicóticas, fora da realidade, podem chegar a não ver sentido em sair daquela situação.

Um levantamento de 2013 mostrou que só nas capitais do País quase 400 mil pessoas vinham fazendo uso regular da droga. Levando em consideração que mais de 100 mil delas se concentravam nas quatro capitais do Sudeste, deve haver, por baixo, uns 50 mil usuários de crack na cidade de São Paulo. Dados publicados recentemente pelo Estado mostram que cerca de 800 frequentavam a maior Cracolândia do País. Ou seja, 98% dos usuários estão em suas casas, tentando seguir a vida, tropeçando e levantando, sem sucumbir totalmente ao vício.

A terceira informação, portanto, é que poucos chegam a isso.

Juntando essas três informações, chego à seguinte conclusão. Se, por um lado, a internação em massa nas cracolândias não se justifica como política para as drogas, nem arranham o problema, por outro, não se pode negar que há pessoas ali que não têm autonomia, e não interná-las é que configura violação dos direitos humanos.

Ou seja, uma opinião para desagradar todo mundo.