Os rolezinhos são um dos fenômenos recentes mais intrigantes em minha opinião: eles reúnem elementos de diversas naturezas, em suas causas e consequências, desafiando aqueles que buscam uma compreensão do que está acontecendo. Por se prestarem a diversas leituras, cada um vê neles o que bem entende, muitas vezes hostilizando opiniões divergentes. Creio que sejam suas muitas camadas, não mutuamente excludentes, que embaçam um pouco nossa visão.

Antes de mais nada, independente das motivações subjacentes, não se pode negar que eles são fruto da hiperconectividade proveniente do amplo acesso da população à internet e às redes sociais. Como no caso das manifestações que sacudiram transitoriamente o país em 2013, trata-se de um comportamento emergente. Isso significa que o movimento surge a partir da interação entre múltiplos elementos mais simples – no caso, as milhares de pessoas – mas não pode ser explicado apenas pelo comportamento individual dos envolvidos. A complexidade que nasce a partir das diversas interações faz com que o fenômeno seja imprevisível; é impossível vislumbrá-lo previamente, mesmo conhecendo os envolvidos.

Mas só a conexão ampla sozinha não basta. Claro que existe aí um colorido social, já que as ações são altamente simbólicas quando jovens da periferia organizam-se para ocupar em massa os espaços de consumo que são os shopping centers. Diante do discurso oficial que arbitrariamente mudou a classificação de milhões de pessoas de pobre para classe média baseado em seus hábitos de consumo de eletrodomésticos (mesmo que a custa de crédito, não de ganho), os rolezinhos mostram que penetrar na esfera do consumo não basta. Os shoppings, templos do supérfluo, não permitem que haja dúvida sobre quem é excluído mesmo após se tornar consumidor.

O problema é que, mesmo que nasça como fruto da alta conectividade entre pessoas com uma motivação comum, quando a massa se reúne as coisas tendem a sair do controle. Não que o comportamento da multidão seja irracional – tal ideia prevalente nos séculos XVIII e XIX já não encontra muitos defensores. Mas fato é que o tumulto foge às tentativas de organização, e a racionalidade subjacente ao movimento – no caso, a exclusão e consumo – passa a se manifestar na coletividade em comportamentos que não surgiriam individualmente, como correria, depredação e saques.

Mas nada disso aconteceria sem um ímpeto adolescente. Com aquela capacidade de indignação de quem acabou de desenvolver um senso de justiça abstrata, misturada à impulsividade de quem ainda não terminou seu processo de amadurecimento, os jovens e adolescente dominam a cena em todos os rolezinhos.

Redes sociais, juventude, exclusão, psicologia das massas, comportamentos emergentes – o menu de análises possíveis é amplo, e duvido que haja uma só causa envolvida. O ideal seria estabelecer um diálogo entre visões diferentes na tentativa de entender o que são de fato esses rolezinhos. Porque sem isso não conseguiremos lidar com seus significados reais. Sejam quantos forem.