Crimes como o ocorrido no Colorado costumam dividir a opinião pública, uns acreditando que o criminoso só pode ser “louco”, não imaginando que um ser humano “normal” seja capaz de cometer tal massacre, e outros não admitindo que tamanho planejamento possa partir de um doente, vendo na insanidade uma maneira de fugir à responsabilidade por seus atos. Tal divergência se dá porque um ato tão violento obviamente não é “normal”. Segundo o dicionário Houaiss, normal é aquele “cujo comportamento é considerado aceitável e comum”, e um massacre não é nenhuma das duas coisas. Mas do fato de não ser normal não podemos concluir que seja, necessariamente, patológico.

Embora para muitos esse crime seja uma forma de suicídio, já que na maioria das vezes o assassino se mata ou acaba se colocando numa situação em que será inevitavelmente morto, quando isso não ocorre poucos são os criminosos que recebem algum diagnóstico psiquiátrico que explique seus atos. A maldade, gostemos ou não, existe de forma independente da loucura.

Se ainda assim quisermos arriscar encontrar uma proximidade entre esses casos e a psiquiatria talvez devamos nos voltar para as síndromes ligadas à cultura. Tais síndromes são definidas pelo manual diagnóstico da American Psychiatric Association como um padrão repetitivo de comportamentos aberrantes específicos de um local, que – frise-se – podem ou não estar ligados a transtornos mentais. O caso dos massacres, particularmente nos Estados Unidos, parece caminhar nessa direção. Claro que seria leviano afirmar que assassinatos em massa um tipo de doença, mas não há dúvida que por trás deles existem fenômenos psíquicos disfuncionais que, dada a ocorrência tão frequente e repetida nos EUA, fazem pensar sobre a grande influência exercida pelo contexto sociocultural. Numa sociedade de espetáculo como a americana, onde a maior derrota é ser um anônimo loser, é revelador o bilhete de despedida de um assassino em massa de 2007, em que dizia querer ser famoso e “ir embora com estilo”.

Mas a verdade é que se ficarmos debruçados na tarefa inútil de tentar “entender a mente” de tais assassinos ou prevenir seus crimes, corremos o risco de esquecer que as vítimas e pessoas que testemunham tais eventos sofrem um abalo inigualável, com grandes chances de desenvolver transtornos ansiosos ou mesmo depressivos. E é para elas, nesse momento, que podemos fazer a maior diferença.