Eu não me lembro de ter brincado com muitos quebra-cabeças na minha infância. Não que fossem itens totalmente ausentes do meu mundo, mas não tenho recordações de gastar tempo nesse tipo de brincadeira. Talvez por isso nunca desenvolvi muito gosto por eles. Bem, até hoje. Recentemente meus filhos ganharam quebra-cabeças da tia (coincidência ou não, neurologista) e pela primeira vez me dei conta como esses jogos são fascinantes.

Não vou me deter sobre seus possíveis benefícios. Montá-los é um ritual que estimula a atenção, concentração, persistência, raciocínio visuoespacial, recrutando uma série de habilidades cognitivas que provavelmente são benéficas tanto no desenvolvimento do cérebro infantil como na manutenção da saúde mental no envelhecimento. Tais benefícios provavelmente serão em breve formalmente comprovados (o primeiro ensaio clínico específico está em curso), mas o que me encantou de fato sobre eles foi perceber como sua lógica mimetiza nossas estratégias mentais.

Nosso cérebro é uma máquina de reconhecer padrões. Sua função final pode até ser mais ampla do que essa, já que no fundo ele serve para solucionar problemas. Mas faz isso estabelecendo relações, antecipando resultados, prevendo desdobramentos, juntando informações – ou seja, reconhecendo padrões. Ele é tão dedicado a essa função que os reconhece até onde não existem – ilusões, enganos e falsas crenças devem-se a essa característica.

Montar um quebra-cabeça é fazer isso. Dividir as peças em grupo por cores e separar as bordas é só o começo de uma empreitada que exigirá a identificação de diversos padrões de cores e formas, permitindo determinar primeiramente a região de cada peça e depois seu lugar específico. Conforme passa o tempo o cérebro vai adquirindo fluência naquele padrão e por vezes basta bater o olho em uma peça para saber, de forma aparentemente mágica, exatamente onde ela se encaixa. Essa intuição é fruto da prática – outra característica do nosso cérebro que o quebra-cabeça evidencia. A habilidade que adquirimos com o treino, em qualquer atividade, nos capacita a poupar energia tornando automáticos boa parte dos processos decisórios. Ter uma intuição é inconscientemente reconhecer um padrão e extrair disso informações imediatas sobre um curso a seguir. Mas apesar de útil, a intuição não é infalível, como sabe bem quem já se frustrou diante de uma peça que não se encaixa como imaginado. Como sua capacidade de estabelecer padrões leva o cérebro a encontrá-los até onde não existem a intuição eventualmente está errada. Mas ela não é capaz de autocorreção e nunca duvida de si mesma – uma vez que intuímos algo aquilo nos parece certo. Até que a realidade nos mostra que a certeza nem sempre tem razão.

Isso para não comentar daqueles momentos em que travamos. Por mais que olhemos não conseguimos vislumbrar como avançar – parece que nada mais faz sentido e aquele quebra-cabeça nunca será finalizado. Não assim também diante de outros desafios? Essa é a hora de deixar o trabalho sobre a mesa por um tempo. Depois de algumas horas – ou mesmo no dia seguinte – num passe de mágica as peças voltam a se encaixar. Da mesma forma, se passamos muito tempo numa determinada atividade às vezes nos vemos incapazes de encontrar a solução. Mas na manhã seguinte, durante o banho ou no meio de um sonho ela nos surge como por encanto. É que quando relaxamos damos espaço para o cérebro divagar, processando em segundo plano todas aquelas informações, encontrando um padrão que parecia oculto.

Não deve ser por acaso que resolver um quebra-cabeça é uma metáfora quase universal em solução de problemas. Quando falamos que estão faltando algumas peças todos sabem o que queremos dizer. E não há quem ignore o prazer que temos mesmo com as pequenas soluções – aqueles passos intermediários que, se ainda não são o quadro completo, começam a fazer sentindo na composição do todo ao serem resolvidos. É assim que se monta o quadro da vida.

A maior diferença é que a vida não vem com um desenho estampado na caixa. Por isso pode ser um quebra-cabeça mais difícil de montar. Mas também mais prazeroso.

 

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Leitura mental

O livro Caçadores de Neuromitos faz parte de um projeto amplo que reúne uma série de neurocientistas e pesquisadores brasileiros em torno do urgente tema de divulgação científica. Ainda mais numa área cheia de mitos como as neurociências. Só para dar um exemplo, com certeza você encontrará na internet gente dizendo que os quebra-cabeças têm efeitos no cérebro, embora estes ainda não tenham sido verificados. Lançado pela editora Memnon com organização de Roberta Ekuni,‎ Roberta Ekuni, ‎ Larissa Zeggio e‎ Orlando Franscisco Amodeo Bueno, o livro é organizado em capítulos que abordam temas específicos, como se usamos o cérebro é utilizado 24 horas por dia, a mentira sobre usarmos apenas 10% dele, o que é afinal memória fotográfica, o real papel do afeto na aprendizagem, entre outros mitos que nem sempre resistem em pé quando confrontados com as evidências científicas.