foto de arquivo pessoal

Sempre que um novo evento escancara a capacidade das pessoas serem más – seja uma jornalista esquartejada na Suécia, uma multidão metralhada nos EUA, uma mulher assassinada dentro de uma viatura policial – a loucura é a primeira suspeita. Não vamos perder tempo explicando porque maldade não é sinônimo de doença mental. Já falamos muito sobre isso por aqui. Queria falar de outro aspecto: porque as pessoas não apenas acreditam, mas até desejam que a doença mental explique a maldade.

Existem várias razões. Em primeiro lugar, porque é uma saída fácil. Não precisaríamos debater regulamentação de porte de arma, questões de gênero, violência na mídia, modelos parentais, pobreza, nada. A falta de razão no criminoso nos isentaria de buscar razão para o crime. Além disso, e talvez mais importante, colocar a maldade na conta do cérebro defeituoso nos ajuda a esquecer que qualquer pode ser mau – não é o ser humano comum que pratica a crueldade, pensamos, só o ser humano louco. Dividimos assim a sociedade entre nós – normais – e eles – insanos – e dormimos tranquilos, ignorando aquela sombra que habita em cada um de nós, sofregamente mantida sob controle.

A maldade e a bondade inescapável que todos carregamos, aliás, é o tema central da série de comédia The Good Place, produção original da Netflix. Nesses tempos em que ser nerd virou uma vantagem competitiva, a tribo dos nerds, geeks, CDFs e simpatizantes está dominando o mercado, introduzindo na cultura pop temas bem sofisticados.

O seriado começa com algumas pessoas chegando, após sua morte, ao lugar bom de que fala o título. Ele se parece com um bairro qualquer, com praças, residências, comércio, e uma peculiar predominância de sorveterias de iogurte. No entanto a protagonista, Eleanor Shellstrop, tem certeza que está ali por engano. Ela é uma daquelas anti-heroínas que odiamos amar: egoísta mas fragilizada, alternando mentira patológica com sinceridade extrema, dependendo de seus interesses. Desprezível e adorável, parece uma mistura do George Constanza com a Leslie Knope. Mesmo sabendo que não pertence ao lugar ela decide pedir ajuda para sua alma gêmea, um professor de ética e filosofia moral chamado Chidi (sim, ética e filosofia moral – veja do que os nerds são capazes), para que ela a ensine como ser boa, e quem sabe assim não ser enviada para o lugar ruim. Chidi passa a dar aulas para Eleanor, explicando as bases da ética, mas seu comportamento pouco colaborativo não ajuda muito. Ainda assim nós torcemos para que ela consiga garantir sua estadia. Porque com o avançar da trama fica evidente que ela não é só maldade. E que os outros também não são essa bondade toda. Se algo tem consequências excelentes, mas foi feito por motivação egoísta, trata-se de uma ação ética? Por outro lado, se a intenção era boa, mas causa algum mal, trata-se de uma atitude moralmente reprovável?

Essas questões não estão explícitas, não se trata de um seriado sisudo. Ao contrário, é uma comédia até um pouco histérica, com cores saturadas, diálogos rápidos frequentemente aos berros, com viradas surpreendentes na trama. Os atores convencem e dão credibilidade a essa estética do exagero, mas o roteiro não perde de vista nem por um segundo esse subtexto do convívio inevitável entre bem e mal.

A gente é assim mesmo. Ambos lugar bom e ruim têm lugar dentro de nós. A maldade quase nunca é uma forma de loucura. Quando ela aparece com toda sua força poucas vezes se trata de alguém em surto. Usualmente é alguém sem doença mental, mas em quem a maldade encontrou muito espaço por uma série de circunstâncias no mais das vezes não plenamente compreensíveis. É incômodo, mas é bom que nos incomode. Para nos lembrar de manter a vigilância sobre nossos demônios internos. Como disse o apóstolo Paulo, aquele que pensa que está em pé, cuide para que não caia.

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Leitura mental

O livro das virtudes foi lançado pela primeira vez nos EUA na década de 1990, vendendo milhões de exemplares mundo afora. O autor, secretário de educação do presidente Ronald Reagan, William John Bennett, fez uma antologia de histórias, dos mais variados tipos, ilustrando as virtudes. Pode-se dizer que suas escolhas como coragem, autodisciplina, amizade, compaixão, trabalho, bebem diretamente nas fontes gregas. Os textos, contudo, são muito mais diversos, indo da bíblia a autores contemporâneos, passando por fábulas, prosa, poemas, não há restrições.  E a caprichosa tradução brasileira, relançada esse ano pela Nova Fronteira, inclui autores nacionais como Mário Quintana e Ferreira Gullar (meus poetas favoritos), além de clássicos como Drummond e Erico Veríssimo.