2017_IJD_English

Muitos acreditam que a falta de diálogo no mundo é a raiz de todos os males. Para outros, o problema é que esquecemos as origens e tradições. Ao contrário, há quem veja na inovação e criatividade a chave para um mundo melhor. As questões racial e de gênero são centrais para tantos. E existem os que só veem a diplomacia eficaz como saída para a humanidade. A lista não é completa, mas traz problemas com duas coisas em comum: todos são relevantes para nossa vida prática; e todos podem ser abordados pelo jazz.

Não sou eu que estou falando. Foi a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), que tem como objetivo central promover a paz e segurança mundiais por meio de educação, ciência, cultura, quem criou o Dia Internacional do Jazz há seis anos. No dia 30 de abril o mundo inteiro celebra esse estilo musical, conscientizando a comunidade internacional das “virtudes do jazz como uma ferramenta educacional e uma força para paz, união, diálogo e cooperação entre as pessoas”. Quem não conhece o estilo – e sua história – pode considerar uma declaração ambiciosa demais. Mas a verdade é que o jazz tem realmente uma força transformadora ímpar.

Os músicos de jazz precisam trabalhar o tempo todo de forma colaborativa, criando espaço uns para os outros, respeitando os solos, dialogando continuamente, já que o improviso é parte essencial de toda execução. Por outro lado, isso só é possível porque todos têm estão interligados, e mesmo os maiores arroubos de criatividade durante o improviso têm sua base em uma linguagem comum, calcada na tradição. Como um dos maiores embaixadores do estilo, Wynton Marsalis, definiu bem no documentário de Ken Burns, “O real poder e inovação do jazz é que um grupo de pessoas pode se reunir e criar arte – arte improvisada – negociando uns com os outros suas pautas. E a negociação é a arte”.

Sendo de origem negra, foi também um forma de valorização dos negros no mundo, inclusive para as mulheres, já que grandes cantoras de jazz fizeram história ao mostrar com sua música a força das mulheres – vocal, pessoal, profissional.

Respeito, diálogo, negociação, igualdade, colaboração, tradição e inovação. Valores fundamentais para nossos dias (tão carentes de qualquer valor) estão presentes no jazz. Disso não se pode possível afirmar que os problemas sumiriam se todos fôssemos apreciadores do gênero. Mas se seus fundamentos estivessem mais presentes em nossas relações, certamente o mundo seria melhor. E mais agradável de se ouvir.

(O concerto global promovido pela UNESCO esse ano será em Havana, e transmitido ao vivo aqui).

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Leitura mental

Uma das melhores notícias do ano esse lançamento de O Livro Ilustrado dos Maus Argumentos, de Ali Almossawi (Sextante, 2017). Numa era em que se não bastasse a opinião valer mais do que os fatos, ainda por cima vivemos cercados por falácias para onde quer que olhemos. Falácias são aqueles raciocínios que, apesar de parecerem verdadeiros, são mal construídos e levam a falsas conclusões. Eles padecem de diversas inconsistências, mas estas só ficam aparentes numa análise formal. O livro traz as principais falácias e as desmascara com ajuda de ilustrações e exemplos divertidos, dando ao leitor a capacidade de identificá-las. Prepare-se para encerrar discussões (e amizades), ao apontar a falta de lógica no mundo que nos cerca.