É nauseante a notícia de que um ritual satânico no RS culminou com o sacrifício de duas crianças. Literalmente nauseante – fiquei com o estômago embrulhado ao ler os detalhes. Vou me poupar de voltar a eles, portanto, e tentar refletir sobre como é possível um ser humano chegar a esse ponto.

Não me espanta nem um pouco que pessoas se digam capazes de manipular forças espirituais para alcançar seus objetivos – isso acontece todo dia no planeta desde que adquirimos alguma capacidade de imaginação. Também é compreensível, uma vez acreditando nessa possibilidade, que indivíduos passem a oferecer o serviço de penetrar no oculto em troca de dinheiro. Quer conquistar a pessoa amada? Amarração para o amor. Sucesso financeiro? Pacto com o além. O mundo é assim, se há quem compre, haverá quem venda.

Mas nunca levei muito a sério esses anúncios. Sempre achei que as pessoas envolvidas não acreditassem tanto assim no que faziam. Imaginava que esses magos estavam – conscientemente – no ramo dos negócios, não da religião. E mesmo seus clientes, pensava eu, no fundo viam tudo aquilo como uma espécie de jogo de azar – as chances reais são pequenas, há uma grande dose de acaso envolvida, mas resolvem arriscar, vai que dá certo.

Quando a coisa atinge o nível que chegou no RS, contudo, sou obrigado a rever esses conceitos. As pessoas ali aparentemente acreditavam realmente no poder do diabo. Não acho que o líder do ritual, dono do Templo de Lúcifer, se disporia a matar crianças somente para fazer um teatro. Nem que os clientes, que buscavam “prosperidade nos negócios empresariais”, topassem tal abominação sem fé nos resultados.

Ainda assim é bastante perturbador imaginar que, crenças à parte, o que estava em jogo era apenas dinheiro. As crianças foram raptadas na Argentina em troca de um caminhão. O líder cobrou R$25.000,00 pelo trabalho. E os empresários queriam ficar ricos. E em nenhum momento alguém parou e disse: “Espere um segundo, são duas pessoas vivas. E suas famílias? E seu futuro?” Fico me questionando a que ponto chega a desumanização do sujeito que não consegue se fazer essas perguntas. Quão importante tem que ser o dinheiro para que ele consiga soterrar qualquer resquício de compaixão? Quão pouco vale sua alma, ou quanto vale o sucesso, para trocar dessa maneira ou pelo outro?

Nossa literatura, oral e escrita, sacra e leiga, é recheada de histórias de pactos com o diabo. Não é por acaso. São sinais de alerta colocados por nós mesmos para abrir nossos olhos, porque todos podemos ser tentados a vender nossa alma se a recompensa tiver apelo suficiente. Não importa o que chamemos de diabo ou de alma, quando abrimos mão de nossa humanidade em troca de algo, estamos celebrando um pacto mefistofélico. (Caso você esteja se perguntando, aceitar injustiças, compactuar com corrupção, tolerar o sofrimento alheio, são todas formas de abrir mão do que nos faz humanos).

O caso do RS é intolerável. É a face mais horrenda da desvalorização da alma e supervalorização do dinheiro. Mas é, ao mesmo tempo, somente o ápice de um processo. O qual, como indivíduos e como sociedade, devemos sempre combater.