Comportamento De Massa

O real mistério do vestido é: por que raios fez tanto sucesso?

Por Daniel Martins de Barros

27/02/2015, 12h27

   

A sedução da ilusão de ótica, o instinto de manada e o gosto por polêmicas - receita perfeita para um vestido mobilizar a internet.

Fazia tempo que um assunto só não causava tanto barulho no mundo – esqueça Oscar, guerra, corrupção, o que dominou as atenções no planeta inteiro foi a bendita cor do vestido. Começou na internet e viralizou de tal maneira que emissoras de TV, rádio e jornais entraram na discussão. Mas por que tamanha repercussão?

Antes de mais nada, se você ainda não sabe, o vestido original é azul e preto mesmo. Mas a foto postada no tumblr, que rodou o mundo, tem uma luminosidade ambígua, dando margem para que o cérebro interprete as cores de forma diferente. Sim, porque a realidade é menos objetiva do que pensamos: as cores, sobretudo, não “existem”, elas são uma interação entre a radiação luminosa, os objetos (que refletem diferentes comprimentos de onda de luz), nossa retina, que recebe esse reflexo e os transforma em impulsos elétricos, e nosso cérebro, que interpreta tais estímulos levando em conta diversas variáveis, como contexto, histórico de percepções anteriores etc. Assim, o cérebro de uns atribui uma determinada luminosidade à cena em torno do vestido, vendo-o de uma cor, mas com outras pessoas esse pressuposto do cérebro pode ser diferente.

Mas o mais interessante na história toda foi o volume de discussão que o assunto gerou. Creio que três motivos expliquem o fenômeno.

Em primeiro, as ilusões de ótica tem um grande apelo para nós. Sermos desafiados em nossas percepções, dando-nos conta de que o mundo não é algo estático e objetivo, mas fluido e que pode enganar nossos sentidos é fascinante e assustador. Casos como o do vestido nos mostram que as coisas podem não ser o que parecem, que o mundo pode ser diferente do que imaginamos. Esse estranhamento é bastante sedutor.

Além disso, há o componente do instinto de manada. Nós somos seres sociais, temos necessidade de pertencer e fazer parte de grupos. Por isso, quando temos a sensação de que todo mundo está indo numa direção, fazendo algo ou falando de um tema, automaticamente somos tentados a nos juntar ao rebanho, ficando ansiosos e aflitos se não tomamos parte do grupo. Com isso, quanto mais os assuntos crescem nas redes sociais, mais tendem a crescer, chegando a extremos como o do vestido.

E por fim há o tempero da polêmica. Nós adoramos discutir: na hora em que alguém discorda de nós, automaticamente passamos a defender nosso ponto de vista, mesmo que não estejamos assim tão convictos. E esse instinto é reforçado quando vemos que temos aliados, passando a dividir o mundo entre “nós e eles”. No caso do vestido, a divisão das pessoas entre as que viam azul e preto ou branco e dourado criou um ambiente perfeito para tais embates tão instintivos no ser humano.

Mas a grande lição que fica, ao menos para mim, é que muitas vezes discutimos e nos colocamos em lados opostos quando, na verdade, estamos falando da mesma coisa. Uns vêem de um jeito, outros de outro, mas a realidade é a mesma, e a beleza (e o desafio) da vida é unirmos nossas visões diferentes para criar uma vida de complementariedade.