O banimento de algumas marchinhas carnavalescas é só mais um capítulo na novela do politicamente correto. Fenômeno mundial, mais intenso em alguns lugares do que em outros, a ideia por trás dele é muito bem intencionada: a linguagem cotidiana não apenas refletiria as diferenças históricas existentes entre grupos (privilegiados versus desprivilegiados, por exemplo), como também favoreceria a manutenção dessas diferenças. Se livrarmos a linguagem dessas influências podemos ao menos reduzir um dos fatores que perpetuam injustiças.

Duas grandes questões precisam ser respondidas. A primeira é se essa é apenas uma opinião ou se há evidências empíricas de que seja verdade. A segunda, e tão importante quanto, é descobrir porque o politicamente incorreto incomoda tanta gente. Se conseguirmos encontrar essas respostas pode ficar mais fácil decidirmos que rumo tomar como sociedade.

Para os críticos do politicamente correto mundo está ficando muito chato: levar a sério marchinhas carnavalescas com conteúdo hoje considerado preconceituoso seria uma bobagem. Nesse quesito, contudo, as evidências científicas apontam para outra direção. Vários experimentos realizados sobre o tema mostram que, por um lado, o humor não faz as pessoas se tornarem preconceituosas. Ninguém ouve uma música e pensa, “É mesmo! Negros são inferiores, como nunca me dei conta?”. Por outro, as piadas criam um ambiente de aceitação à discriminação – assim, quem já acreditava existir diferenças qualitativas entre grupos sente-se menos constrangido e tem mais chance de agir de forma discriminatória. Não por acaso, são as pessoas que mais se divertem com esse tipo de humor.

Se está correto, porque então o politicamente incorreto é tão criticado?

Um dos mecanismos mentais que nos permitem apreciar o humor é acreditar que uma piada é apenas uma piada, convencendo-nos que elas não têm problema. Em maior ou menor grau, todos fazemos isso – a comédia sempre traz um pouco de agressividade ou violação de normas, e para apreciá-la temos que dar esse desconto, considera-la um tanto inocente. O politicamente correto incomoda ao denunciar que quando fazemos isso com o humor sexista, racista ou contra qualquer minoria estamos agindo como vetores de desigualdade. E como ninguém acha que é preconceituoso, quando nos dizem que passamos a infância endossando injustiças nas matinês de Carnaval, por exemplo, a tendência é nos sentirmos mal e resistirmos à ideia. Não se desmascaram defeitos ocultos impunemente.

O problema é que essa resistência faz com que as pessoas passem a desdenhar do politicamente correto como se fosse mera chatice. Os seus defensores reagem então com agressividade diante dessa tentativa de desqualificação, alimentando um círculo vicioso de hostilidade de parte a parte.

É preciso que os defensores da correção política deixem de gritar e apontar dedos se quiserem realmente se fazer ouvir. E é preciso que a sociedade entenda que eles têm um ponto. Ou essa novela se transformará numa história sem fim.