Quase ninguém se sente seguro em São Paulo. Nada menos que 91% dos paulistanos consideram pouco ou nada seguro viver na cidade, índice recorde nesse tipo de pesquisa. Sentem-se “nada seguros” 45% dos cidadãos, e nenhum deles (de nós?), sente-se “muito seguro”.

O que poderia ser apenas mais um dado sobre as condições da metrópole ganha relevância maior quando levamos em conta que essa percepção de insegurança tem impactos diretos na saúde das pessoas, sobretudo na saúde psíquica, aumentando em muito o risco de adoecimento mental. Isso não apenas leva ao sofrimento individual, mas toda a estrutura social sofre, com perda de qualidade de vida, perda de produtividade, menor crescimento, nunca chegando a alcançar o verdadeiro potencial da cidade e dos cidadãos.
Na primeira metade do século XX o psicólogo americano Abraham Maslow escreveu um trabalho muito influente até hoje sobre a motivação humana, no qual propunha que nossas necessidades seguem uma hierarquia. Segundo ele, se não satisfazemos os níveis básicos não conseguimos subir na escala das realizações pessoais. Assim, se não temos comida, bebida, sono – necessidades fisiológicas em geral – não conseguimos pensar em outra coisa, permanecendo impossibilitados de buscar qualquer outro objetivo. Em segundo lugar vem a necessidade de segurança, pois enquanto nos sentimos inseguros não nos é possível investir energia na busca das outras coisas. Relacionamentos, estima e realização pessoal viriam na sequencia. Embora a teoria tenha recebido diversas críticas, sobretudo pela rigidez da hierarquização que propõe para cada nível, é difícil discordar que se sentir pouco ou nada seguro impõe uma carga constante sobre os indivíduos, levando inevitavelmente a um desgaste e prejudicando a qualidade de vida.

No ano passado foi publicada a maior pesquisa epidemiológica sobre saúde mental já realizada em São Paulo. Os números destoaram da média mundial – 29,6% dos indivíduos da Região Metropolitana de São Paulo apresentaram ao menos um transtorno mental no ano anterior à entrevista, colocando a cidade no topo do ranking entre os países pesquisados. Não por acaso os problemas ligados à ansiedade foram os mais comuns, com um em cada cinco paulistanos apresentando ansiedade patológica – basicamente medo e tensão acima do normal. Mas mesmo os transtornos mentais graves foram mais comuns na cidade, afetando 10% dos paulistanos, deixando cidades americanas num distante segundo lugar, com 5,7% de prevalência.

Se as questões próprias da vida urbana fossem os únicos fatores de risco para doenças mentais, como ritmo acelerado, menor contato interpessoal, distância do local de trabalho etc., não se esperaria uma disparidade tão grande entre São Paulo e o resto do mundo. Mas privados de algo tão básico como a sensação de estar seguro, o paulistano acaba por se tornar um dos cidadãos mais doentes do planeta.