O medo é uma indústria muito poderosa. O medo da violência movimenta o mercado da segurança; o temor das doenças alimenta uma indústria bastante diversificada em produtos, que vão de limpeza a alimentação; isso para não falar em compras por medo de ficar de fora, de perder a oportunidade, de ser socialmente excluído. O marketing e a publicidade descobriram muito antes das neurociências que as emoções têm um papel enorme em nossas tomadas de decisão. E com o tempo foram aprendendo a refinar o alvo, manipulando em emoções cada vez mais básicas – e portanto intensas e difíceis de controlar – para estimular o consumo.

Há quem acredite que apesar de vivermos em tempos cada vez menos ameaçadores as pessoas estão cada vez mais temerosas. Quanto mais seguros estamos, mais as coisas podem parecer perigosas. “Tudo é ousado para quem a nada se atreve”, como alertara Fernando Pessoa. E dá-lhe produtos para garantir a proteção.

Não conheço dados estatísticos que confirmem ou neguem essa hipótese, mas me parece bem plausível. E coerente com o que observo ao meu redor. Gente com mais e mais medo, de mais e mais coisas, muitas vezes sem justificativa a não ser um

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, por exemplo, é um fenômeno tão disseminado que já deu origem a uma geração inteira batizada de kidults, ou “criançadultos”: sujeitos que se recusam a deixar a infância para trás (o que, aliás, é um excelente negócio para fabricantes de produtos infantis para gente grande; não à toa publicitários americanos criaram o termo Peterpandemônio para se referir à essa epidemia conveniente para eles). Seria um efeito colateral de uma sociedade que tudo teme?

Fora o cada vez mais aparente medo do amor. O número de solteiros cresce no mundo todo, inclusive no Brasil, à medida que as pessoas optam por não se envolverem formalmente. Nada contra a pessoa não querer casar – se vínhamos casando contra a vontade, impelidos por uma conformação social excessiva, viva a liberdade de fazer o que queremos. Mas não seria outro sintoma do excesso de medo? Já há quem fale em filofobia, ou o pavor de se envolver emocionalmente. Todo mundo conhece alguém nessa situação: aquele amigo ou amiga que diz acreditar no amor, mas foge diante da menor possibilidade de um envolvimento mais sério. Mesmo que tenha encontrado alguém compatível e bacana, aparentemente sem razão não deixa o relacionamento ir para a frente. Medo?

Talvez haja outras explicações sociológicas ou até econômicas, mas acho que a insegurança conta muito. No livro que citei em texto anterior, sobre a mortalidade, o autor afirma que as pessoas não têm medo da morte, mas do que vem logo antes dela: o risco de sentir dor, a possibilidade de sofrimento, a sensação de perda de controle. Ora, não é o mesmo o que acontece no amor? Mas nesse caso, esses riscos surgem logo depois dele. E estamos todos muito avessos a riscos.

O risco é acabarmos tendo medo de tudo, nos fechando para qualquer tipo de experiência existencial. Chegaríamos à segurança absoluta para uma vida absolutamente sem sentido. O que aconteceria com uma sociedade cuja existência fosse tão vazia de significado? Tenho medo de pensar na resposta.