[tweetmeme]Após muitas entrevistas, acho que é hora de tentar reunir minhas ideias e impressões sobre o assassinato em massa ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro. Televisão, jornal e rádio acabam sempre editando o material ou pautando muito a entrevista e, portanto, se quiser conhecer de fato uma análise mais aprofundada do crime de Wellington Menezes de Oliveira, sugiro que tenha um pouco de paciência e leia o artigo todo.

O que temos de concreto

Ele era muito introspectivo, num nível que chamava a atenção: não tinha amigos, aparentemente nunca teve namorada, conhecidos dizem que pouco ouviram sua voz na vida. Ou seja, seu padrão de interação social era sem dúvida diferente do normal. Pode-se inferir com alguma segurança que essa excentricidade fosse prejudicial, já que agora sabe-se que ele foi de fato vítima de chacotas, humilhações e exclusão na escola, conforme depoimento de ex-colegas de classe. Essas características mostram um claro padrão disfuncional de estabelecer relações pessoais.

Sua irmã conta que ele tinha comportamentos com tendência ao fanatismo religioso. Ao que parece fora criado como testemunha de Jeová, e após o falecimento da mãe adotiva teria aderido ao islamismo. Independente da orientação religiosa, do conteúdo da sua crença, o que chamava atenção era o fato de ele permanecer horas a fio diante do computador, em leituras místicas dia e noite.

Por fim há a carta. Embora o conteúdo seja estranho, misturando elementos religiosos de forma confusa e questões de disputa familiar, o texto é gramaticalmente preservado, tem linguagem compreensível, formalmente coerente, não parecendo o discurso incompreensível de uma pessoa totalmente “desconectada” da realidade. Pode-se afirmar também, a partir dela, que ele sabia o que ia fazer, inclusive que ia morrer, ao se referir sobre como queria seu sepultamento e que alguém pedisse perdão pelo que ele fez.

O que se pode inferir sobre ele

A partir dos elementos que concretamente sabemos, não é impossível inferir que Wellington apresentasse um transtorno mental. Por quê? Porque transtornos mentais são alterações do comportamento, do pensamento, do afeto ou outro aspecto da vida mental que são claramente prejudiciais, mas que fogem ao controle do indivíduo. Importante dizer que infiro isso sem levar em conta o crime. Um criminoso, mesmo muito cruel, não pode ser chamado de doente só por conta de seu comportamento, pois até que se prove contrário isso é sua escolha, não foge ao seu controle. Digo isso para reforçar que estou especulando a partir do histórico de Wellington – e não do crime – que ele tivesse um transtorno. Isso é fundamental, porque a maioria absoluta dos pacientes com transtornos mentais nunca comete crimes – quando envolvidos em situações de violência, eles têm mais risco de ser vítimas do que vilões. Por bizarro que seja o ato, um crime não faz diagnóstico.

Apesar de ver nele algum desequilíbrio e embora o conteúdo do discurso dele parecesse distorcido, não creio que estivesse claramente psicótico, ou seja, que tivesse uma perda plena de juízo, sendo totalmente incapaz de diferenciar realidade de fantasia. E dar um diagnóstico qualquer sem tê-lo examinado a fundo (ou sem ter elementos suficientes) seria chute.

O que sabemos desse tipo crime

Assassinatos em massa costumavam ser um fenômeno ligado à cultura, muitíssimo mais comuns nos EUA do que em qualquer lugar do mundo. Nos últimos anos, no entanto, eles vêm acontecendo cada vez mais em outros países.

Uma revisão da literatura sobre casos de assassinatos em massa mostra que estes crimes perpetrados por jovens contra jovens dentro de escolas são relativamente recentes. Eles começam em meados da década de 90 do século passado, sendo que os 14 crimes com mais mortes ocorreram na última década, 8 deles nos EUA. Sabe-se também que as vítimas são mais frequentemente mulheres, e que em quase 100% dos casos os assassinos são homens e terminam mortos, ou por suicídio ou por se colocar em situações inescapáveis. Por isso mesmo já são considerados como uma modalidade de homicídio-suicídio.

Sabe-se também que na maioria das vezes esses casos podem ser classificados como crimes de vingança, sendo os seus agentes pessoas que eram isoladas, excluídas e anônimas na escola, não raramente vítimas do chamado bullying. São crimes bastante planejados, com focos específicos, tanto mais detalhadamente estudados quanto mais focada for a vingança. Não existe, no entanto, um perfil mais bem definido de quem sejam essas pessoas.

Finalmente, é bem conhecido que nos assassinatos em massa geralmente o sujeito que apresenta fatores predisponentes passa à ação após um fator precipitante: é o funcionário ressentido que mata os colegas após uma demissão traumática ou o pai de família que mata todos na casa após a separação, por exemplo. Imagina-se que o isolamento social também atue como um precipitante por privar o assassino de limites e freios que são obtidos na interação com o próximo.

O que se pode dizer sobre o crime do Rio

De forma coerente com os dados internacionais, o massacre em Realengo segue alguns padrões: foi um assassinato em massa de escola, perpetrado por um ex-aluno que sofrera humilhações por parte de seus colegas. Foi evidentemente bem planejado, com antecedência e minúcia, tendo um foco claro no local onde o autor fora um excluído.

O detalhe de ele ter matado mais meninas, poupando meninos que poderia identificar como também vítimas de rejeição (como em sua fala “Fique tranquilo gordinho, que não vou te matar.”), dá margem a interpretações da mesma linha – vingança contra quem rejeita, poupando os rejeitados.

Outro padrão no qual o massacre do Rio se encaixa é a existência de fatores predisponentes seguidos por um precipitante muito comum – o isolamento – pois após a morte da mãe Wellington se isolou totalmente de uma vez por todas.

Pode-se também intuir que essa modalidade de assassinato, outrora restrita à cultura norte-americana, está de fato se espalhando pelo mundo – o caso do Rio já se insere entre os mais graves, aumentando a proporção de países fora dos EUA que são palcos desses massacres.

O que a Psiquiatria não explica

Diante desse cenário e com minhas inferências, podemos dizer qual foi a causa do massacre? Foi o transtorno mental? O bullying? A morte da mãe?

Não tenho medo de responder negativamente a todas essas alternativas. Transtorno mental não torna os pacientes assassinos em massa. Se seu filho estuda com um colega cuja mãe é esquizofrênica, não é preciso se apavorar – tal medo só aumenta o preconceito contra a psiquiatria e reforça o prejudicial círculo vicioso de exclusão. Da mesma forma ser vítima de assédio escolar é traumatizante, mas por si só não transforma uma sujeito em criminoso, o mesmo valendo para a perda de pai ou mãe.

Embora a sociedade avidamente busque uma explicação, temos que evitar respostas fáceis que deem impressão que o assunto é tranquilamente resolvível se tratarmos dessa ou daquela variável. Por angustiante que seja, temos que encarar que esse é um crime extremo, resultado de uma combinação de influência cultural, infortúnio social, predisposição mental entre outros fatores que nem sequer imaginamos, mantendo-o sob uma assustadora capa de imprevisibilidade.

O que a Psiquiatria explica?

Em 1912 o psiquiatra suíço Hans W. Maier criou um conceito que até hoje permanece na psiquiatria: a catatimia, que significa “em acordo com as emoções”. Sua tese era de que conflitos inconscientes, com grande carga emocional, poderiam levar a distorções do juízo de realidade. O psiquiatra alemão Fredric Wertham retomou o conceito em 1937 para tentar explicar o comportamento de indivíduos que haviam cometido atos muito violentos, mas que não eram fruto de doenças mentais ou de personalidades psicopáticas. Sua intenção era entender as motivações, a dinâmica mental por trás desses atos, e para tanto resgatou a ideia do estado catatímico: ele não achava que o estado emocional por si só levava ao ato criminoso, mas que as emoções muito intensas levavam a ideias afetivamente carregadas e distorcidas, usualmente um forte desejo, um grande medo ou uma tensão ambivalente, e isso acabava por distorcer o fluxo do pensamento. A “crise catatímica” ocorreria quando “o balanço entre lógica e afetividade [estivesse] perturbado”, em suas palavras. A intensidade dos afetos da pessoa em relação a determinado tema seria tão intensa a ponto de distorcer o raciocínio, pensamentos, todo o psiquismo.

Na origem desse fenômeno uma experiência traumática cria um conflito intenso e sem solução na mente da pessoa, levando-a à conclusão de que “um ato violento contra outro ou contra si é a única saída”. Essa conclusão é acompanhada da sensação de ter que logo partir para a ação, mas o sujeito luta contra o desejo, muitas vezes avisando amigos, professores ou terapeutas (hoje em dia publicando textos e vídeos na internet, podemos imaginar), e adia a violência por um tempo variável, até que o conflito se torna insuportável e o crime – que tem geralmente um valor simbólico, envolvendo algum tipo de problema relacional – finalmente ocorre. Os pensamentos suicidas, que usualmente se entremeiam aos desejos homicidas, acabam resultando também na morte do criminoso.

Resumindo

Resumindo, temos um rapaz que, sofrendo com algo que dificulta suas interações sociais, entra num círculo vicioso de humilhação levando a mais isolamento, gerando mais exclusão e assim por diante. O ressentimento crescente que ele acumula encontra terreno propício para florescer em sua mente que já se equilibrava de maneira precária. O conflito se estabelece e cresce, até o ponto desse estado emocional dominar sua vida mental. A catatimia leva o “pensamento do paciente assumir um caráter delirante, com rigidez marcante e inacessível ao raciocínio lógico”, como na descrição original de Wertham. O plano de vingança se torna imperativo, e quando surge um novo fator estressante (a morte da mãe e o isolamento total) a crise catatímica se externa no massacre.

Sem compreender exatamente o estado psíquico do assassino as pessoas tentam explicá-lo invocando transtornos mentais mais conhecidos, como a esquizofrenia, o que se prova falso na maioria dos casos de crise catatímica.

É isso que reuni até agora. Novas informações podem derrubar parte dessas ideias, ou mesmo toda sua construção. Não tem problema, ciência é isso mesmo.

ResearchBlogging.org Bowers, T., Holmes, E., & Rhom, A. (2009). The Nature of Mass Murder and Autogenic Massacre Journal of Police and Criminal Psychology, 25 (2), 59-66 DOI: 10.1007/s11896-009-9059-6
Schlesinger, L. (1996). The Catathymic crisis, 1912-present: A review and clinical study Aggression and Violent Behavior, 1 (4), 307-316 DOI: 10.1016/S1359-1789(96)00003-1