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Li certa vez o relato de um dermatologista americano que atuava numa pequena cidade dos Estados Unidos. Era tão comum as pessoas mostrarem para ele suas pintas, lesões e berebas variadas que certa feita, na fila do mercado, uma senhora o reconheceu. “Ora! O Sr. não é o doutor fulano de tal, dermatologista?”, perguntou ela. Diante da resposta afirmativa a senhora passou em revista rapidamente seus braços e em seguida lamentou-se: “Que pena não ter nada para mostrar”. Conversando recentemente com a Dra. Márcia Purceli, colega do programa Bem Estar, ela confirmou que é exatamente assim, as pessoas vão abrindo as blusas, arregaçando as calças, tirando os sapatos, onde quer que a encontrem. “A vantagem da psiquiatria é que não dá para sair mostrando os sintomas assim, não é”?, comentou ela. “É verdade. Mas se depressão desse do lado de fora, as pessoas talvez se tratassem mais”, comentei.

De fato, ao contrário do que acontece na dermatologia e em tantas outras especialidades, os sintomas dos transtornos mentais muitas vezes representam ampliações de vivências normais do dia-a-dia, o que pode dificultar o reconhecimento das doenças. Não temos qualquer tolerância com manchas estranhas, feridas abertas, fraturas – corremos buscar ajuda quando elas ocorrem. Mas quando os sintomas são invisíveis e parecidos com emoções normais, não temos a mesma pressa. Ficar triste, por exemplo, é absolutamente normal. Sentir-se ansioso, tenso, até meio persecutório, são experiências que em si mesmas não têm nada de patológico. Então nem sempre fica claro quando o sintoma passou do limite, caracterizando uma doença.  “Deve ser o cansaço”, “É uma fase”, “Preciso de férias”, “Quando me estabelecer num relacionamento, melhoro”, são desculpas que damos para nós mesmos, tentando compreender como normal algo que já está prejudicando nossa vida.

Dois sinais ajudam a identificar quando uma emoção deixou de ser normal para se tornar patológica: o quanto ela está no controle do indivíduo e o quanto está atrapalhando sua vida. Uma coisa é ficar ansioso, conseguir se controlar e fazer a apresentação no trabalho, mesmo que com voz trêmula. Outra coisa é travar diante dessa tarefa, incapaz de se controlar, tendo prejuízos no emprego. O sinal amarelo acende quando a pessoa passa a sofrer consequências por conta de suas emoções: queria fazer algo e não consegue, gostaria de reagir mas não tem força. Hora de ver o que está acontecendo. Esses critérios nos protegem de dois grandes problemas em psiquiatria: o excesso e a falta. Excesso é o risco de querer diagnosticar qualquer coisa – desobediência nas crianças, irritação nos adultos, esquecimento nos idosos – como sinais de doença. É preciso cuidado para não exagerar e colocar rótulo patológico em coisas normais. O risco oposto – e ainda mais perigoso – é a falta. Falta de um diagnóstico para quem está doente. Chamar de tristeza algo que já virou depressão, chamar de hábito algo que já se tornou dependência.

Ter em mente que emoções são normais enquanto elas nos ajudam mas patológicas quando passam a nos atrapalhar, portanto, é um excelente antídoto, tanto para o excessos quanto para a falta.

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Leitura mental

Se tem alguém que pode ajudar a diferenciar a tristeza normal de um quadro patológico é Matt Haig, autor do pungente Razões para continuar vivo (Intrínseca, 2017). Haig começou a escrever sobre o que era sofrer de depressão num blog e se espantou com a repercussão. As milhares de pessoas que atravessassem caladas por esse mesmo vale, ou que acompanhavam alguém nessa situação, encontraram nele uma voz, identificando-se e sendo finalmente compreendidas. Seu relato em primeira pessoa ajuda a dar a dimensão profundamente dolorosa e real dessa doença, não deixando espaço para que se imagine que depressão é falta de força de vontade ou que basta querer reagir. Mas que ainda assim é possível encontrar as tais razões para continuar vivo.