Se você ainda não assistiu, deve assistir o filme Que horas ela volta?, de Anna Muylaert. Indicado pelo país para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro, fala-se ainda da possibilidade de uma indicação de melhor atriz para Regina Casé. Que venha a indicação, que venham mais prêmios. Porque se o filme é bom, o tema é melhor.

Regina Casé faz o papel de Val, que após criar Fabinho (Michel Joelsas) como sua babá, permanece na mansão dos patrões Bárbara (Karine Teles) e José Carlos (Lourenço Mutarelli) como empregada. Tudo nos conformes – ela é praticamente da família, educada, competente e sabe muito bem se pôr no seu lugar: não usa a piscina da casa, não se senta à mesa com eles, nada diferente do que se vê por aí. Até que a filha Jéssica (Camila Márdila) vem para São Paulo para prestar vestibular, e traz um elemento perturbador para essa ordem. Alheia às regras não declaradas da relação patrões-criadagem, ela desobedece esse manual implícito a cada atitude que toma – por vezes sem perceber, por outras de propósito – criando um constrangimento para sua mãe e incomodando a patroa. E despertando a consciência da plateia. Herdeiros de uma cultura de Casa Grande e Senzala que somos, todo brasileiro sabe “desde que nasce, não precisa ninguém ensinar”, como diz Val à filha, que aqui é lé com lé, cré com cré, cada qual com sua ralé. Tomamos essa realidade como natural, e por isso o muro de segregação que se ergue entre a empregada e a família se torna invisível para nós. Até que alguém de fora enxerga. E resolve pular o muro.

Sustentar essa situação de proximidade e distância exige um esforço mental nada desprezível de parte a parte. Não é possível ter tanta intimidade com outro ser humano e ainda assim tratá-lo de forma tão diferente, a não ser que a pessoa se convença que ele não é um igual. Da mesma forma, não é possível continuar aceitando tratamento tão desigual a não ser que o sujeito passe a acreditar que é mesmo diferente. Nossa mente não suporta a dissonância cognitiva: quando nossas ações não são coerentes com nossas crenças, ou nós mudamos as atitudes ou mudamos as crenças. E como nem Bárbara quer abrir mão da empregada, nem Val pode desistir do emprego, a situação se mantém, e todo mundo se convence de que nós somos duas categorias distinta de gente. Nascem a discriminação e o preconceito.

Mas sem ser ingênuo o filme aponta dois caminhos para derrubar esse muro. O primeiro é o da razão – com seu discurso crítico e igualitário Jéssica desmascara a distorção mental que sustenta a situação toda. Embora não diga, creio que ela não se incomodaria de ver a mãe continuando como empregada desde que se abandonasse esse discurso do “quase da família”, que serve muitíssimo mais aos interesses dos patrões do que aos empregados. Quer tratar minha mãe como empregada? Então formalizemos o vínculo e passemos a nos relacionar em chave estritamente comercial. Quer tratar como da família? Então deixe entrar na piscina. Mas não me venha com vínculos dúbios e casuísticos.

O segundo caminho é o do afeto, representado por Fabinho. O amor entre ele e a babá é sincero, e em nenhum momento o vemos discriminar Val ou Jéssica. Muito ao contrário, tem ligação mais forte com Val do que com os próprios pais – enquanto esses não se sentam à mesa com ela, o menino chega a dormir em sua cama. No debate que promovemos no Instituto de Psiquiatria do HC em parceria com o CineSESC, a Camila Márdila disse que ouviu muita gente se reconhecer no Fabinho e ter crise de consciência – “Que péssimo que fui. Eu amava minha babá e nunca me dei conta da situação absurda em que vivíamos”. Mas não sei se concordo. Os filhos não têm poder de alterar essa dinâmica patronal, e até certa idade nem sequer discernimento suficiente para criticar a situação em que cresceram e portanto lhes parece natural. Mas se ainda assim, mesmo inserido nessa lógica, Fabinho não vê Val como diferente, creio ser graças à ligação afetiva entre eles.

Se é verdade que o brasileiro tem alergia à igualdade, como diz Roberto Damatta, os mecanismos mentais que sustentam essa desigualdade não são passíveis de reciclagem: uma vez que o véu se abre, uma vez que a distorção cognitiva é revelada, o processo é irreversível. Depois que vemos, não conseguimos mais deixar de ver. Não por acaso, depois das sessões do filme feita com trabalhadores domésticos houve gente que se demitiu – não dava mais para mudar as crenças, restou mudar o comportamento.

E talvez o filme não estoure nas bilheterias justamente por isso. Porque há coisas sobre as quais preferimos não pensar, pois sabemos que se pensarmos, teremos que agir.