Não sei se já comentei por aqui, mas quando eu comecei a minha formação como psiquiatra não entendia porquê existir um movimento de “antipsiquiatria”, e não outros, como a “antipediatria”, “anticardiologia” etc. Com o tempo acho que descobri. E duas obras recentes ajudam a compreender.

Comecemos pelo Félix. Se você não o conhece, é um dos vilões da novela “Amor à vida”, que por uma série de interesses escusos quer se ver livre da irmã Paloma – uma das mocinhas da trama. Nessa semana ela foi presa por tráfico internacional vítima de uma armação. Como tem boa família, bons antecedentes, profissão estável, o juiz permitiria que ela aguardasse o julgamento em liberdade, mas aí entrou o vilão: ele conversou reservadamente com o magistrado, contando vários episódios que sinalizariam um desequilíbrio mental da irmã, convencendo-o a recomendar que ela fosse internada numa clínica psiquiátrica. Evidentemente Félix já se preparara de antemão, escolhendo um lugar “rigoroso”, e que utiliza métodos “muito tradicionais”, e Paloma foi levada para lá. A partir daí tudo que a personagem falava era interpretado como sintomas pela psiquiatra malvada, até que ela se irritou e, por brigar com a médica, foi levada para tomar “choque na cabeça”.

O problema é que a psiquiatria já foi de fato usada como instrumento para enquadrar pessoas indesejáveis outras vezes. De verdade.

Lançado esse ano, o livro “Holocausto brasileiro – Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil” (Geração Editorial) é uma reportagem da jornalista Daniela Arbex sobre a história do maior manicômio do país no século XX, o Colônia, em Barbacena (MG), onde chegaram a ficar internadas cinco mil pessoas simultaneamente em instalações projetadas para duzentas. A falta de leitos levou a direção a abolir as camas e espalhar feno no chão, para que mais pessoas dormissem no mesmo lugar – medida que foi recomendada pelo governo como sendo interessante para outros hospitais. O excesso de pessoas tinha causas: a maioria não tinha doença mental. O Colônia era cheio de pessoas como a Paloma da novela, enviadas para lá por serem um problema: a empregada do coronel que ficou grávida dele, a menina que se rebelava contra o pai porque queria ganhar o mesmo salário que os irmãos homens, homossexuais, prostitutas. Mas também tinha consequências: faltava comida, água, roupas, tudo. E as pessoas então comiam ratos, bebiam do esgoto e andavam peladas, num verdadeiro campo de concentração como os nazistas, mas no coração do Brasil, e há menos tempo do que gostaríamos. Estima-se que 60.000 pessoas morreram lá (veja o curta metragem do cineasta Helvécio Ratton sobre o local).

Mas atacar a psiquiatria por conta desses episódios é como atacar o futebol por conta das brigas de torcidas. Aquilo não é psiquiatria. É uma distorção de uma área do conhecimento médico, cujos instrumentos são usurpados para eliminar do convívio social pessoas indesejadas. Se há maníacos que usam bisturis para estripar mulheres a culpa não é do bisturi. Se a eletroconvulsoterapia é usada como castigo, o problema não está no tratamento – que mundialmente é reconhecido como eficaz, usado sob anestesia com parâmetros éticos e humanísticos – mas na motivação de quem está fazendo isso.

Mas eu concedo que é importante existir certa oposição. Para manter a sociedade na linha. Não só os psiquiatras – porque, como diz Arbex no livro, um genocídio como o ocorrido em Colônia não se dá sem a conivência (e o desejo, acrescento eu) da sociedade. Se eu pudesse escolher, não acabaria com a antipsiquiatria. Só ajustaria seu foco: para mim ela não serve para destruir nossa especialidade (o que seria desumano, pois a psiquiatria tem o objetivo, como qualquer outra área da medicina, de aliviar o sofrimento patológico), mas serve para vigiar todos nós – psiquiatras ou não – para que não permitamos, como sociedade, que nem a psiquiatria nem qualquer outra área do saber seja utilizada para diminuir a dignidade do ser humano.