“Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fale tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber esta situação.” Harry Gordon Frankfurt, 1986

“Com fim de aumentar a consciência pública sobre os benefícios a serem obtidos pela pesquisa sobre o cérebro, o Congresso designou a década que se inicia em 1 º de janeiro de 1990 como a ‘Década do Cérebro’.” George Bush, pai, 1990

Depois da neuroeconomia, do neuromarketing, da neuroética, neuroestética, eu proponho oficialmente a criação da neurobullshit. Li recentemente o ensaio On bullshit (Sobre falar merda, editora intrínseca, 2005) e percebi que esse fenômeno descrito pelo filósofo Harry Frankfurt no final dos anos oitenta antecipava exatamente o que viria a acontecer pouco depois com as neurociências. Finda a década do cérebro, nunca se falou tanta bobagem sobre o tema.

O essencial sobre a bullshit, Frankfurt teoriza, não é que se trate de mentiras deliberadas, nem tentativas de enganar. O ponto é que a “bullshitagem” (como já ficou conhecida no português informal) dá de ombros para a verdade. Se é mentira ou não pouco importa, porque o “bullshiteiro” (vocábulo corrente em agências de propaganda) quer mesmo é passar uma determinada impressão sobre si, seja de importância, de sabedoria etc. É aí que entra a neurobullshit – independentemente do rigor das pesquisas científicas citadas, mesmo se os resultados precisarem ser distorcidos para caber no discurso, acrescentar o prefixo “neuro” traz um ar de seriedade, sofisticação e modernidade quase irresistíveis. Daí que jornalistas, blogueiros, palestrantes, médicos, pedagogos, todos queiramos entrar para o clube do cérebro – já que está todo mundo nessa onda, não posso ficar de fora. Como ensina Frankfurt, no entanto, “a produção de merda é estimulada sempre que as obrigações ou oportunidades que uma pessoa tem de se manifestar sobre algum tópico excederem seu conhecimento dos fatos pertinentes”.

Lendo cerca de três mil notícias publicadas nos principais jornais do Reino Unido durante a “Década do cérebro”, entre os anos de 2000 e 2010, cientistas encontraram três grandes grupos de distorções nos artigos sobre neurociências: 1) tratar o cérebro como um capital – o órgão é retratado nessas notícias como um bem a ser trabalhado, aumentando seu poder e nos dando vantagens diversas; 2) usar as pesquisas como meio de segregação – diferenças entre cérebro de gordos e magros, criminosos e cidadãos de bem, homens e mulheres são relatadas como fatos, distorcendo o significado real das pesquisas; 3) invocar o cérebro como prova biológica – a subjetividade humana ganha um status de “real” e “natural” quando alocada no cérebro, por vezes justificando fenômenos como preconceito, teimosia e até mesmo a maldade, como se fossem biologicamente determinados. Na maioria das vezes as notícias eram a definição acabada de bullshit: indiferentes à correta interpretação dos dados, estavam mais preocupadas em produzir manchetes vistosas pincelando verniz de ciência do que em relatar a verdade dos fatos.

Ocorre que as pesquisas em neurociências são em sua maioria muito complexas, cheias de detalhes técnicos, tornando difícil sua interpretação mesmo por cientistas que não dominem a técnica específica usada nesse ou naquele artigo. Imagine a dificuldade de tradução para o público leigo.

Isso não quer dizer que tais pesquisas não devam ser levadas ao conhecimento geral. Ao contrário: a sociedade tem desejo cada vez maior por notícias sobre neurociências. Só que precisa ser informada com qualidade. Se em vez de nos contentarmos com as manchetes fáceis sobre o cérebro nós procurarmos obter maior rigor na informação que nos apresentam, forçando as nossas fontes a estudar mais seriamente o tema, com certeza reduziremos o espaço para a neurobullshitagem, pois, como bem diagnostica o ensaio de Frarkfurt, “É inevitável falar merda toda vez que as circunstâncias exijam de alguém falar sem saber o que está dizendo”.

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O’Connor, C., Rees, G., & Joffe, H. (2012). Neuroscience in the Public Sphere Neuron, 74 (2), 220-226 DOI: 10.1016/j.neuron.2012.04.004