As notícias da onda de frio nos Estados Unidos me dão certo arrepio, uma vez que fui vítima de uma dessas nevascas como já contei antes. Para além das minhas experiências, fico pensando o que foi a colonização daquele país, quando os pioneiros chegaram à costa leste americana – justamente a que sofre com esses invernos tão rigorosos – contanto apenas com machado, lenha e cavalos. Dá para entender porque, no ano seguinte à chegada dos colonos, no início do século XVII, eles inventaram a festa de ação de graças – quem sobreviveu ali realmente deveria estar muito grato.

Mas não foi só graças a Deus e à ajuda dos índios. O fato de não estar sozinho, mas cercado pela família, fez muita diferença nas taxas de mortalidade. Sem estrutura para enfrentar a dureza do frio e da neve, cinquenta e três dos cento e três colonos que ali chegaram morreram já no primeiro inverno. E os que estavam sem a família morreram mais do aqueles acompanhados pelos parentes. Embora pareça óbvio, a diferença não é por conta apenas de ter gente por perto para ajudar quando necessário – há algo nas relações de qualidade que é fundamental para nossa saúde.

Os dados são abundantes – uma ampla revisão da literatura mostrou que a sensação de estar isolado (independente de quantas pessoas existam ao redor do sujeito) traz um desconforto enorme, aumenta a ansiedade e percepção de vulnerabilidade, alterando desde a função cardiovascular até o funcionamento do sistema imunológico, passando pela própria expressão genética. Assim, de infartos a demência, de hipertensão a depressão, os riscos de adoecimento são muito maiores em quem se sente só. Solidão não depende de ter ou não gente por perto, como mostra a história dos pioneiros americanos, mas especialmente da forças das relações que estabelecemos com os outros.

De repente me peguei pensando: será que as conexões que fazemos no mundo virtual são suficientes para impedir que nos sintamos sozinhos? Está aí um bom assunto para alguém procurando um tema de pesquisa.

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Hawkley LC, & Cacioppo JT (2010). Loneliness matters: a theoretical and empirical review of consequences and mechanisms. Annals of behavioral medicine : a publication of the Society of Behavioral Medicine, 40 (2), 218-27 PMID: 20652462