Para celebrar o novo Portal Estadão, nada melhor do refletir sobre mudanças.

O ser humano é um poço de contradições. Quer coisas opostas ao mesmo tempo, ama e odeia pelos mesmos motivos, não quer ficar velho nem morrer jovem. E, intrigante, não gosta de mudanças mas não tolera rotina. Como escreveu C. S. Lewis, o homem conjuga o “amor à mudança com seu amor ao permanente”, e por isso gostamos da fusão das duas coisas – mudança e constância – “que chamamos ritmo”, completa ele.

Por que não gostamos de mudar? Porque dá trabalho. Gasta energia. E aparentemente é um desperdício investir energia para desfazer um processo que o cérebro realizou justamente para economizá-la. Funciona assim: quando um comportamento – seja uma ação, um comportamento verbal ou mesmo mental – se prova eficaz, ele é marcado pelo cérebro, sobretudo por meio do neurotransmissor dopamina, como algo a ser repetido. Enquanto estamos aprendendo, várias áreas cerebrais ficam ativamente envolvidas, monitorando a ação, registrando os detalhes, refletindo sobre o que acontece. Conforme o comportamento é repetido, no entanto, ele vai se tornando automático, formando um pacote, ou bloco único de ação. Estudando o cérebro de ratos, cientistas monitoraram a atividade das áreas motoras enquanto eles caminhavam por um labirinto e notaram que, durante a fase de aprendizado, tais regiões cerebrais se mantinham ativas o todo o tempo. Quando o caminho se tornava um hábito a atividade passava a se concentrar apenas no início e fim do bloco, praticamente desaparecendo ao longo de sua execução. Extrapolando isso para toda a complexidade de nosso dia-a-dia, percebemos como desenvolver hábitos é uma tremenda economia, já que poupa muita atividade neuronal. Reverter esse processo, os cientistas notaram também nos ratinhos, depende de um papel ativo do neocórtex, o que demanda esforço e – para bem ou para mal – acaba com aquela economia energética.

Mas ao mesmo tempo, por que não gostamos da rotina? Porque ela empobrece a vida. Esse desligamento do cérebro acaba nos roubando a oportunidade de desfrutar bons momentos de nossa história. No filme Click, por exemplo, o irregular Adam Sandler monta uma fábula que ilustra bem esse princípio: de posse de um controle remoto mágico, passa a “adiantar” os momentos tensos ou desagradáveis de sua vida, entrando num “fast foward” que o poupa de muito dissabores. Num determinado momento, contudo, ele se dá conta que está vivendo há tanto tempo no piloto automático que não viu o tempo passar, não partilhou dos momentos importantes da sua família, passando a vida literalmente desligado. É o que acontece com todos nós conforme a rotina se instala – já não notamos as coisas que nos cercam, entramos no modo automático sem perceber. Por isso temos aquela famosa sensação que o caminho de volta é sempre mais rápido que o de ida – como ele não é mais novidade, mais rapidamente nos desligamos dos detalhes e não notamos o tempo passar. Aliás, é por isso que parece que os dias passam cada vez mais rapidamente: quando somos crianças, absolutamente tudo é novo, chamando nossa atenção e requerendo esforço para compreensão. Na outra ponta, ao ficarmos velhos as novidades rareiam cada vez mais, e quase tudo é repetição, hábito, fazendo com que os dias se sucedam sem notarmos; de repente, já é Natal de novo.

Qual a solução? É o ritmo, como disse Lewis. Segundo ele, para satisfazer esse dilema dos seres humanos, Deus “Lhes dá as estações, cada uma diferente mas a cada ano as mesmas, de tal forma que cada primavera seja sempre uma novidade e ao mesmo tempo a repetição de um tema imemorial”. Não temos disposição ou capacidade suficiente para uma revolução por dia. Mas regularmente é bom que mudemos. A novidade nos força prestar atenção, sair do piloto automático e assim, nos faz sentir vivos.

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Graybiel AM, & Smith KS (2014). How the brain makes and breaks habits Scientific American, 310 (6)