Recentemente fui convidado para dar uma palestra com o sugestivo título de Meu mundo caiu – reconstruindo mundos caídos. O desafio é enorme, porque como diz a famosa abertura do romance Anna Karenina, de Tolstói, “Todas as famílias felizes são iguais. As famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. De fato, quando estamos bem, contentes, remando por águas tranquilas, nem paramos para pensar em nada – nós aceitamos os momentos de felicidade como naturais e não questionamos suas razões. “Quando a gente está contente nem pensa que está contente (…) A gente quer é nem pensar, a gente quer é viver”, como bem apontou Gilberto Gil em Barato Total. Mas quando as coisas vão mal paramos para pensar no que deu errado. Por que o mundo caiu? E aí as variações são imensas. Poderíamos parafrasear Tolstói dizendo que os mundos erguidos são parecidos, mas quando caem cada um cai de um jeito diferente.

Assim, em vez de fazer uma lista enorme de adversidades possíveis e como enfrentá-las – o que seria trabalhoso e inútil, já que no fim das contas sempre haverias problemas deixados de fora – pensei em dois pontos que são comuns a todas as tragédias: a desilusão e as emoções negativas.

Temos a sensação de que nosso mundo caiu quando as bases sobre as quais estruturávamos nossa vida são abaladas. Um relacionamento que termina, o emprego que se vai, a saúde que fraqueja, a morte que aparece – algo que era fundamental para organização prática – e psicológica – da vida desaparece. Não se trata apenas de perder algo que gostávamos. Não. Os mundos caem quando perdemos algo de que achávamos depender. Nesse momento nos damos conta que vivíamos numa ilusão. A ilusão da imortalidade, da estabilidade, da saúde, do outro – para viver em paz, esquecemos que todo relacionamento termina, que toda saúde um dia acaba, que tudo é transitório. Claro: se só pensássemos nisso a vida se tornaria um fardo insuportável. Mas quanto mais fortemente negamos essa realidade, quanto mais idealizamos a vida, maior é a desilusão diante dos problemas.

A primeira linha de enfrentamento das adversidades, portanto, é perder a inocência. Lembrar que nada pode dar sempre certo, mas que tudo sempre pode dar errado. A sensação de que estamos no controle é ilusória, ainda que seja uma ilusão necessária para vivermos a vida. Mas atenção: esse não é um apelo para que fiquemos o tempo todo pensando no que pode dar errado, focando no lado negativo e alimentando o pessimismo. Nem uma apologia do cinismo. Tudo bem continuar esperando o melhor da vida. Mas é bom ter ciência que as coisas podem desandar, às vezes de uma hora para outra. Com as expectativas ajustadas, a desilusão com as pessoas, com as instituições, com a vida enfim, pode ser menor.

A segunda coisa que podemos fazer é prestar atenção às nossas emoções quando lidamos com os problemas inesperados. Existe uma teoria muito interessante que diz que as coisas não têm o poder de nos fazer tristes, alegres, ansiosos ou raivosos. São os nossos próprios pensamentos, ao avaliar as situações, que alimentam os afetos, sejam positivos ou negativos. E existem formas melhores e piores de gerenciar nossas reações emocionais.

Mas esse tema fica para semana que vem.