Quando eu era criança, no século, ou melhor, no milênio passado, estavam na moda as lojas de mágica. Não havia shopping center que não tivesse uma delas, reunindo não só aquelas pegadinhas clássicas, como a almofada que solta pum ou o copo que faz as pessoas babarem, mas também truques que os clientes podiam levar para casa e entreter seus amigos. Eu era fascinado pela possibilidade de ser um ilusionista doméstico, e toda vez que entrávamos num shopping a primeira coisa que eu pedia era para procurar a loja de mágica. Que quase sobrenaturalmente, para desespero dos meus pais, sempre se materializava em nosso caminho. Tanto fiz que ganhei uma lâmpada que acendia sozinha e um baralho que permitia adivinhar o número que a pessoa tinha pensado. Além do copo do babão, que tenho até hoje.

Apesar de ter considerado fazer bico em festas infantis na adolescência, nunca investi para valer nessa carreira, enveredando por outros caminhos no estudo da mente. Sim, porque os mágicos são grandes estudiosos da mente humana. Que o digam os psicólogos Richard Wiseman e Peter Lamont, ambos com livros recém lançados no Brasil. Os dois têm uma carreira acadêmica respeitada em Psicologia, são professores em grandes universidades britânicas, e ambos têm uma sólida atuação em carreiras paralelas. Como mágicos. Wiseman foi um dos mais jovens membros do Magic Circle, em Edimburgo, que Lamont chegou a presidir.

A relação entre ilusionismo e psicologia fica óbvia quando paramos para pensar no assunto: o mágico, como diz Lamont no livro Crenças extraordinárias – uma abordagem histórica de um problema psicológico (Editora Unesp, 2017), deve compreender intuitivamente o que está na mente do seu público para poder oferecer explicações – propositalmente erradas – para o truque que estão presenciando. Esse “despiste psicológico”, como ele chama, é parte fundamental não só do ilusionismo como entretenimento, mas de todas as formas de eventos sobrenaturais, fenômeno que ele investiga numa perspectiva histórica em seu livro. Do mesmerismo ao espiritualismo, desse aos fenômenos psíquicos e deles à paranormalidade, Lamont chega por fim às crenças extraordinárias de forma geral. Em seu rigoroso passeio histórico, investiga como tais crenças são construídas ao longo do tempo, e como respondem a necessidades intrínsecas do ser humano – daí seu sucesso e permanência.

O tema é o mesmo abordado no livro Paranormalidade – Por que vemos o que não existe? (Best Seller, 2017). Wiseman já era mágico profissional quando resolveu estudar Psicologia, e cedo se interessou pela parapsicologia. Seu foco não era tanto a existência ou não do inexplicável, que como cético ele dá de barato que não existe, mas como as pessoas acabam iludidas por eles. Com seu estilo divertido, ele mostra como os fenômenos paranormais são simplesmente consequência da habilidosa exploração (consciente ou não) de falhas de nosso processamento cerebral nossa busca por parte de profissionais dispostos a matar nossa sede por explicações e reconhecimento de padrão. Para provar seu ponto ele ensina o leitor como convencer estranhos que sabemos muito sobre eles, como ter experiências fora do corpo e até como fazer para ver fantasmas.

Lembrei-me do impressionante documentário sobre o mágico e cético profissional James Randi, referência tanto para Wiseman como para Lamont, e sobre o qual já conversamos aqui. Quando Randi mostrava poder fazer os mesmos números que os paranormais que está desmascarando, o público frequentemente se dividia. Parte achava que ele era na verdade um paranormal e não sabia disso, e parte dizia que simular os mesmos fenômenos não tirava a legitimidade dos originais. Poucos eram convencidos pelas evidências.

No fundo, a gente quer mesmo é acreditar em alguma coisa. O problema é que assim ficamos vulneráveis a pessoas que vivem de se aproveitar disso, por mais bem-intencionadas que sejam.