Para minha irmã Tati, pessoa especial como poucas, e para meu cunhado Marcelo, irmão mais velho que não tive.

Parece um sonho

“Parece um sonho que ela tenha morrido!”
diziam todos… Sua viva imagem
tinha carne!… E ouvia-se, na aragem,
passar o frêmito do seu vestido.

E era como se ela houvesse partido
e logo fosse regressar da viagem…
– até que em nosso coração dorido
a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora
menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora…

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
Parece um sonho que ela tenha vivido!”

Desde a primeira vez que li essa poesia de Mário Quintana, há mais de dez anos, ela me impressionou pela extrema delicadeza com que descreve o papel da memória no processo do luto. Foi só com Quintana que finalmente aprendi a apreciar a poesia.

A última vez que declamei esse poema foi há alguns dias, num dos momentos mais duros que nossa família já enfrentou. Meu sobrinho Henrique, de quatro anos faleceu subitamente. Ele tinha uma irmã gêmea, Débora, que é quem tem conseguido manter o astral da família. Ainda parece um sonho que ele tenha morrido.

Parece um sonho, e é como se ele “logo fosse regressar da viagem”, porque todas as representações mentais da realidade ainda o incluem: quando víamos a Débora logo em seguida víamos o Henrique; quando um chamava o outro respondia; quando abríamos a porta, ambos acorriam aos gritos. Esses eventos repetidos e repetidos condicionam os próprios neurônios, e quando vemos a irmã já visualizamos – literalmente – a presença do irmão; por isso que, no luto recente, a “viva imagem tinha carne” – a área visual do cérebro forma a imagem da criança, mas ela não vem. No nosso cérebro sua voz, sua figura, os afetos que ele desperta, ainda estão ativos na sua ausência, não muito diferente do que se ele estivesse na escola. Mas de repente lembramos que ele não vai voltar. É um susto, pois a realidade nega o que o cérebro informa. Parece mesmo um sonho. E é nessa hora que a dor crava “seu punhal selvagem” “em nosso coração dorido”.

Mas novas memórias vão aos poucos sendo construídas. Depois de um tempo os neurônios reaprendem e já não antecipam a visão dele. Quando isso ocorre, a imagem se torna “menos dos olhos, mais do coração”, pois as áreas visuais já não se adiantam criando sua figura. Mais cedo ou mais tarde o cérebro irá se desfazer dessas vívidas representações, acabando com a expectativa de encontrar o Henrique a qualquer momento. E como estamos passando esse processo amparados por tantos amigos e irmãos, tendo na fé não uma forma de negar a dor, mas ao contrário, uma possibilidade de sofrê-la em sua totalidade sem desmoronar, chegará a hora em que nossa saudade o sorrirá, não mais chorará.

Por fim, quando a realidade remodelar o cérebro construindo novas representações sem o Henrique, não será mais espanto lembrar de sua ausência, mas sim de sua existência. E embora a saudade seja eterna, o tempo roubará da dor sua força, pois a partir de então parecerá “um sonho que ele tenha vivido”.