Pouco tempo depois de terminar a residência médica em psiquiatria fui convidado para avaliar alguns jovens infratores na Fundação Casa, em São Paulo. Estávamos no começo dos anos 2000, e entre a maioria de moleques destrambelhados, envolvidos em crimes mas não no crime, havia alguns poucos já com uma carreira estabelecida na marginalidade. Foi quando pela primeira vez compreendi a lógica de guerra que havia se instalado no país. Ficou claro para mim que, de forma geral, sempre que tivessem a oportunidade os criminosos matariam os policiais. Evidentemente o inverso não era menos verdade: a polícia não hesitaria em matar em vez de prender. Nas guerras é assim mesmo. Quando todos têm certeza de que se não matarem serão mortos há pouco espaço para diálogo.

Acredito que seja um exercício inútil tentar precisar como esse fenômeno teve início no Brasil.  Pode ter sido na crescente violência que acompanhou a organização das facções criminosas, levando a uma reação da polícia. Mas pode também ter sido o inverso: a letalidade crescente da polícia levando à reação dos criminosos. Difícil dizer o que é causa e consequência.

Mas se o problema não fosse grave o suficiente, essa mentalidade extrapolou a relação entre policiais e criminosos, penetrando em grande parte da sociedade. O repetido slogan “bandido bom é bandido morto” reflete exatamente isso: matemos os criminosos antes que sejamos mortos. O descrédito nas instituições e a sensação de falência do Estado arrastam cidadãos para a mesma lógica e muitos defendem que não temos de perder tempo com julgamento, prisão etc. Melhor é matar de uma vez.

O último  desdobramento lógico dessa escalada de violência parece agora que está acontecendo. A população resolveu entrar na guerra para valer. Sem qualquer processo legal tem gente querendo determinar quem é bandido e partir para ação: amarrar em postes, espancar, tatuar testas. Mas adivinhe qual será a consequência. Será que os criminosos vão pensar: “Ah, é melhor eu ficar bonzinho senão eu acabo sendo torturado e morto.”? Ou será que vão passar a matar mais para evitar serem mortos?

Condenar quem agem assim não significa defender os bandidos. Significa defender a civilização. Para deixar a barbárie nós precisamos abrir mão do uso pessoal da violência física tornando-a uma prerrogativa do Estado (ou em legítima defesa), e apenas quando justificável de acordo com normas estabelecidas para todos. Pode parecer sedutor permitirmos que qualquer um possa julgar, condenar e punir os bandidos sem os atrasos e as brechas da lei. Mas isso, além de não reduzir a criminalidade, coloca todos em risco. Afinal, o que impediria de um justiceiro nos condenar por algo que ele decidiu de sua cabeça que é crime?

Uma vez que topamos esse vale-tudo nem as “pessoas de bem” estarão mais seguras.

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Leitura mental

Várias formas de violência se alternam na graphic novel Desconstruindo Una, da quadrinista britânica Una, lançado esse ano pelo interessante selo Nemo, do Grupo Autêntica. Começa pela violência sexual contra menores, como a sofrida pela própria autora em sua infância e adolescência. Seguem-se os assassinatos contra mulheres perpetrados por um serial killer que nos anos 1970 e 1980 assustou o Reino Unido. Mas agride-as também o descrédito que a polícia teve para com o testemunho das vítimas que sobreviveram, desprezando suas opiniões a até mesmo culpabilizando-as. A criativa narração visual da artista, que entrelaça episódios autobiográficos e históricos, mostra que a violência contra as mulheres não se restringe a agressões físicas ou psicológicas, podendo assumir formas muito mais sutis e até institucionalizadas.