Uma experiência em escala inédita começa nessa semana, com a criação do primeiro mercado legalizado de maconha do mundo, por iniciativa do presidente do Uruguai, José Mujica. Independentemente de como o processo vier a se desdobrar, trata-se de uma oportunidade única para testar os maiores argumentos contra a liberação das drogas.

Ninguém discute que a legalização de uma substância tende a aumentar a frequência de seu uso na população, até porque o contrário é mais do que sabido: quando cresce a dificuldade para que se adote determinado comportamento na sociedade, sua ocorrência diminui. Um exemplo notório disso, aliás, vem do próprio combate a uma droga: por conta do intenso movimento da sociedade cerceando a até então plena liberdade de que gozavam os fumantes, o consumo de tabaco despencou na última década. Uma mudança cultural, com abundância de informações e redução das oportunidade de consumo do cigarro, criaram fricção suficiente para se adotar esse comportamento no país – e em alguns outros lugares do mundo – a ponto de diminuir drasticamente o número de fumantes do Brasil nos últimos anos. A pergunta que ninguém havia até então tido a oportunidade – ou coragem – de responder era: quanto?

Agora, com a possibilidade de consumir até 10 gramas por semana com a simplicidade de um cadastro anônimo nas farmácias uruguaias, os cidadãos daquele país experimentarão uma facilidade inédita pelo menos nos últimos cem anos para fumar a maconha. Será uma maneira perfeita para finalmente podermos quantificar o sempre antecipado aumento do consumo com a liberdade de uso.

Mas essa não é uma preocupação isolada, nem tampouco trivial, já que com mais pessoas usando a droga, maior o contingente de sujeitos passíveis de se tornar dependentes. Esse é um impacto mais perigoso, já que a dependência química é um problema bastante sério, que traz prejuízos significativos para a vida da pessoa, acarretando em danos não apenas para si, mas em última análise para toda a sociedade. Novamente é impossível prever com exatidão qual o aumento esperado no número de dependentes de maconha em razão do aumento de usuários. Isso porque, apesar de existir uma predisposição genética ao vício, tornando algumas pessoas mais susceptíveis do que outras a perder o controle sobre o uso das drogas, é inegável também uma influência do ambiente. A tendência ao tédio, por exemplo, é um fator de risco para o uso de substâncias psicoativas; essa característica tem tanto componentes genéticos, ligado aos níveis de atividade de dopamina cerebrais, como fatores ambientais, já que a vida de cada pode ser mais ou menos chata dependendo do contexto. A experiência do Uruguai deve lançar luz também sobre essa questão, ajudando a responder em que proporção aumenta o número de viciados conforme aumentam os usuários.

A questão da legalização da drogas é cheia de vieses morais e recheada de argumentos falhos e apriorísticos de parte a parte, o que praticamente inviabiliza qualquer tentativa de diálogo. Que a iniciativa do Uruguai, seja bem sucedida ou não, sirva pelo menos para trazer um pouco mais de dados em meio à abundância de opiniões que esfumaçam o debate.