Há algum tempo venho pensando sobre a polêmica das questões de gênero. De prova do Enem a encíclica papal, do plano nacional de educação às redes sociais, o tema está pulsando na sociedade, que ainda não caminha com firmeza nesse terreno novo das redefinições de papéis. E nos últimos dias duas notícias reacenderam a polêmica. Uma dona de casa de Curitiba publicou no facebook a foto de seu filho de 8 anos lavando louça, dando origem a uma enxurrada de comentários contra e a favor dela. E a cantora Adele foi fotografada passeando na Disney com o marido e filho de três anos vestido de princesa Anna, do desenho Frozen. O bafafá foi enorme.

O tema é polêmico principalmente por colocar em questão dois discursos conflitantes: um diz que essa história de papel de homem e papel de mulher é uma construção puramente social, que reflete uma ideologia que quer manter a mulher subjugada, e que por isso deveríamos abolir, não só da sociedade como da educação das crianças, qualquer menção a gênero. O outro reafirma a existência natural de papéis femininos e masculinos, que tradicionalmente se perpetuam na história, e devem ser mantidos e ensinados desde sempre. Para os primeiros, por exemplo, não existe brinquedo de menino e de menina, cor de menino e de menina, e todo mundo tem que ter livre acesso a tudo – qualquer coisa diferente disso é meio de doutrinação. Já para o outro lado há sim atitudes corretas e erradas para um ou outro gênero, e os pais têm o dever de colocar os filhos no trilho certo.

Para variar, acredito que a verdade está no meio, o que me coloca numa posição de desagradar aos radicais das duas pontas. Como existe bom senso na maioria moderada, sei que minha postura pode bem ecoar uma opinião generalizada. Infelizmente, são os ideólogos que se manifestam com mais veemência, tentando defender sua posição por confundir reflexão com ataque. Paciência.

A verdade está no meio porque não é possível, se formos ser intelectualmente honestos, negar que existem diferenças inatas entrem homens e mulheres. Nós não somos entidades puramente sociais, e negar nossa biologia é ridículo. E como “Nada em biologia faz sentido a não ser à luz da evolução”, segundo sabiamente notou o biólogo Theodosius Dobzhansky, surpreendente mesmo seria não haver distinção entre homens e mulheres, dada nossa história evolutiva. Crescendo em ambientes com recursos escassos e dando à luz crias dependente de cuidados intensos, os humanos dividiram seus papéis lá atrás, nas cavernas, com homens caçando e mulheres cuidando das crias. É ululante que as mulheres com mais aptidão para cuidar dos filhos deixaram mais descendentes, perpetuando tais características. O mesmo para os homens mais hábeis em levar comida para casa, como aqueles com melhor orientação espacial. Tais diferenças ficaram então inscritas em nós indelevelmente como tendências naturais. Note: tendências, não destino. Como grupo os homens tendem a ser melhores em orientação espacial, as mulheres em reconhecimento de emoções, isso é inegável. Mas individualmente as coisas variam (na minha casa, por exemplo, é justamente o contrário – eu sou totalmente desorientado, e minha esposa parece um GPS humano).

Por outro lado, está claro que historicamente essas diferenças foram e até hoje são usadas pelas pessoas como instrumentos de cerceamento de liberdade dos indivíduos. Do fato de essas diferenças estatísticas existirem não se pode, automaticamente, concluir que as mulheres não são capazes de trabalhar como motoristas, ou que os homens não podem ser babás. Mas ainda hoje é muito comum a crença de que o homem tem o papel de prover materialmente a casa, restando à mulher a obrigação de cuidar de todas as necessidades dos filhos. Normalmente quem pensa assim acha que qualquer outro desenho doméstico é errado e deve ser proibido. Vem daí, creio, o desespero de alguns pais ao ver seus filhos brincando com bonecas ou panelinhas – isso seria exclusivamente coisa de menina.

O erro dos dois lados é fingir que o outro não tem certa razão. Como as diferenças naturais podem ser usadas para perpetuar preconceitos e restrições, os defensores da igualdade preferem negar sua existência e dizer que tudo é socialmente determinado. Na outra ponta, por essas tendências existirem de fato, os tradicionalistas defendem que esses papéis de gênero são naturais e, portanto, corretos, negando a capacidade humana de ir além da biologia.

É errado dificultar o acesso de mulheres a determinadas profissões baseado em preconceitos. Mas é inútil negar a realidade na luta por um direito. Nesse, como em todo debate, só vamos conseguir avançar a partir do momento que formos capazes de enxergar a questão do ponto de vista do outro.