Causou furor essa semana uma pesquisa mostrando que usar o facebook faz mal: segundo um estudo alemão, na rede social as pessoas passam tempo testemunhando as notícias sobre as férias alheias e a vida social dos outros, sentido assim inveja, tristeza e solidão. A assessoria de imprensa da Universidade de Berlim caprichou no press release e a notícia bombou no mundo. Exercitando meu lado nerd e do contra, resolvi ler o artigo original e posso tranquilizar os leitores: não é bem assim.

A inveja é disseminada na nossa vida desde que somos seres sociais: vivendo em sociedade, necessitando de interações pessoais e coletivas de forma repetida no tempo, o exercício das comparações sempre foi inevitável. Das cavernas ao capitalismo financeiro estamos olhando em volta, para bem e para mal. Tanto que um dado assustador é que a maioria de nós preferiria um salário de R$ 5.000,00 se os amigos ganhassem em média R$ 3.000,00, do que um salário de R$ 8.000,00 se os outros ganhassem R$ 10.000,00. Estranho, não? Pois é: preferimos ter acesso a menos recursos, desde que isso seja mais do que os outros.

Se levarmos em consideração as nossas limitações mentais, no entanto, isso não fica tão absurdo. Nosso cérebro não sabe manipular muito bem valores absolutos, funcionando mais à base de comparações: para dizer se uma cor é clara, precisamos comparar com outras; segurar um objeto e estimar o peso é difícil, mas saber se ele é mais pesado do que outro é imediato. Os contrastes chamam nossa atenção mais do que a homogeneidade – tanto que conseguimos adormecer diante da televisão ligada se estamos no barulho, mas despertamos com pequenos ruídos se cochilamos em silêncio. Sobretudo para valores tão artificiais como salário, renda etc., a régua de medida acaba sendo mesmo a comparação.

Tanto que um dado não comentado nas notícias foi que no estudo, 70% da inveja nossa de cada dia foi sentida mesmo “offline” – é no dia-a-dia que o grosso das comparações ocorrem, e assim como nas redes sociais, as viagens alheias são o tema campeão na geração de inveja. Mais interessante ainda foram as diferenças: as mídias sociais não promovem a inveja do sucesso dos amigos, tema muito importante na “vida real” (como Oscar Wilde já sabia que “Qualquer um pode simpatizar com os sofrimentos de um amigo, mas é preciso que de fato se tenha muito boa índole para se simpatizar com o sucesso de um amigo”). E o lado bom também não foi ressaltado: o estudo concluiu que o problema é o acompanhamento passivo da vida dos outros, porque quem usa o facebook para interagir e se comunicar tinha té melhores índices de qualidade de vida.

Então, obviamente, o problema não está nas redes sociais. Na internet, assim como da janela de casa, nós podemos ficar apenas olhando e comentando a vida dos outros, ou então podemos buscar construir relacionamentos com aqueles que nos cercam. E isso, já foi provado, é o que torna a vida significativa.