Criança tem tanta energia que ser pai de duas me fez emagrecer de tanto ficar atrás delas. Mas interagir com os filhos pode ser bom não só para os pais, mas para as crianças saberem se controlar no futuro.

Uma revisão recente da literatura científica mostrou que as interações sociais precoces, sobretudo o relacionamento que se estabelece entre pais e filhos, são essenciais para o desenvolvimento das funções executivas, aquele conjunto de ações mentais que devem ser realizadas para se alcançar um objetivo. Para tanto é preciso conseguir inibir comportamentos, ter flexibilidade mental para mudar o plano de ação, atualizando constantemente as informações que chegam até nós. O maior desenvolvimento dessas habilidades é justamente na pré-escola, e o contato com outras pessoas é fundamental para tanto, pois ele é a melhor forma de as crianças aprenderem a definir objetivos, mudar perspectivas, controlar os impulsos etc. Os dados indicam ainda que dos dois modelos de interação pai-filho possíveis – o de suporte e o de punição – o primeiro é o mais bem sucedido no auxílio ao desenvolvimento das funções executivas nas crianças. A punição e coerção têm sua eficácia prejudicada por não permitirem que a criança desenvolva seu autocontrole, aumentado o risco de se tornar um adulto impulsivo.

O famoso experimento do marshmallow mostrou que a capacidade de controlar impulsos em crianças está associada a diversos resultados positivos, como ter bons empregos e sucesso na vida adulta. O divertido vídeo das crianças tentando resistir a um doce por dez minutos, para ganhar dois em troca, ilustra como até mesmo a obesidade está ligada à capacidade de adiar gratificações.

Como se não bastasse, o primeiro experimento controlado mostrando a importância do carinho acaba de ter sua história contada no livro Romania’s Abandoned Children. Durante a ditadura comunista na Romênia, a política de estímulo à natalidade de Nicolae Ceuasescu fez surgir uma quantidade absurda de órfãos. Além da abolição do controle de natalidade, o ditador criou uma “taxa de celibato” para pessoas com menos de cinco filhos. Com a pobreza crescente, muitas crianças passaram a ser abandonadas e, consequentemente, institucionalizadas. A abertura política trouxe a possibilidade de um estudo inédito – e impensável em outros contextos – comparando os efeitos da institucionalização versus a adoção no desenvolvimento mental das crianças.

Com a morte de Ceausescu e a abertura política, no início dos anos 2000 um grupo de pesquisadores americanos conseguiu verba para a criação de uma rede de “adoção temporária” (foster care), que evidentemente não tinha vaga para os mais de 100.000 menores abandonados. Com isso apenas algumas crianças eram enviadas para esses lares enquanto a maioria permanecia no orfanato – o que era decido aleatoriamente. Os dados de acompanhamento foram analisados ao longo de dez anos, mostrando o efeito dramático da falta de cuidados pessoais para as crianças. Comparando o quoeficiente de desenvolvimento, análogo ao QI em crianças, aquelas que permaneciam nos orfanatos tinham em média 10 pontos a menos do que as transferidas para um lar antes dos 2 anos (e quase 30 a menos do que as nunca institucionalizadas). E a própria atividade cerebral medida por eletroencefalograma era muito maior nas adotadas, que tinham ainda menores índices de diversos problemas emocionais.

Claro que os pais amarem os filhos é mais regra do que exceção. Mas é bom saber que “amar” não é suficiente se não vem acompanhando de interação e carinho.

ResearchBlogging.org
Nelson CA 3rd, Fox NA, & Zeanah CH Jr (2013). Anguish of the abandoned child. Scientific American, 308 (4), 62-7 PMID: 23539791
Moriguchi Y (2014). The early development of executive function and its relation to social interaction: a brief review. Frontiers in psychology, 5 PMID: 24808885