Uma das coisas mais inúteis que a gente pode dizer para alguém que está nervoso é: “Se acalme!”. Além de gramaticalmente errado, é inútil – e pode deixar a pessoa ainda mais ansiosa. Até porque mesmo que ela quisesse seguir esse conselho – o que já é difícil no estado em que se encontra – é muito complicado saber como agir, o que fazer objetivamente, para se acalmar.

Se quiser ajudar realmente o melhor é dizer: “Respire devagar”. Aí está um comando simples, direto, altamente compreensível e bem mais fácil de colocar em prática. E o melhor: eficaz.

Nós sabemos que a relação entre corpo e emoções é uma via de mão dupla. Quando temos uma emoção intensa  o coração acelera; mas quando o coração acelera as emoções se intensificam. Quando nos sentimos felizes, sorrimos; e quando sorrimos nos sentimos mais felizes. É assim também com a respiração: o estresse súbito, a elevação da ansiedade, tornam a respiração mais rápida e superficial. Por outro lado, se você já viu alguém pegando no sono percebeu como a respiração lenta e profunda está associada a momentos de calma e tranquilidade.

Da mesma forma que o coração tem um marca-passo natural, que gera impulsos elétricos levando à contração rítmica, recentemente foi localizada no cérebro uma região responsável por controlar o ritmo respiratório. Ao contrário da monotonia da pulsão cardíaca, contudo, existe uma variedade maior de comportamentos respiratórios, como bocejo, suspiro e até engasgo. Cientistas conseguiram manipular essa região – diretamente e por meio de engenharia genética -, produzindo ratinhos que respiravam sempre devagar. Para surpresa dos pesquisadores essa única mudança tornou os ratos mais tranquilos, menos inclinados ao estresse. Assim como medicamentos que bloqueiam a taquicardia por vezes impedem os pacientes de ficarem tensos, também impedir a taquipneia (respiração acelerada), parece ser uma boa forma de reduzir a ansiedade.

Não é por outro motivo que grade parte dos exercícios de meditação passam pelo controle voluntário do ritmo respiratório. Hoje em dia há abundantes evidências de que os resultados de tais práticas se refletem em redução do estresse, aumento do bem estar, queda na pressão arterial e frequência cardíaca, só para ficar em poucos exemplos. Essas recentes descobertas das neurociências só vêm comprovar, portanto, o que a experiência prática das meditações já sinalizava.

Para desacelerar a mente, portanto, desacelere o corpo. Como? Simples: inspire, expire. Inspire, expire.

 

Kwon D. Meditation’s Calming Effects Pinpointed in the Brain. Sciam Issue No: Vol. 28, No. 4 (2017).

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Leitura mental

Recomendo dois livros para quem quer começar a entrar nesse mundo da meditação. Embora de linhas teóricas diferentes, ambos estimulam a atenção plena, uma das práticas contemplativas mais em voga ultimamente. Em Atenção plena para iniciantes, da editora Sextante, o médico americano criador do Programa de redução do estresse baseado na atenção plena, Jon Kabat-Zinn, ajuda o iniciante a se aproximar do método em pequenos textos com os fundamentos do mindfullness. O CD com práticas de meditação guiada que acompanha o livro é de grande valia nesses primeiros passos. Já o Atenção plena em linguagem simples, do monge e filósofo Bhante Henepola Gunaratana (editora Gaia) cumpre o que promete, e com um texto leve e de fácil compreensão dá o passo-a-passo para quem nunca meditou antes. Pessoalmente, indico ainda o aplicativo Insight timer, que permite escolher desde o tempo meditando, a música de fundo e até a voz do instrutor (em inglês).