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Estou assistindo – e recomendo fortemente – o documentário de doze horas de duração sobre a história do jazz feito pelo historiador e documentarista Ken Burns (que está sendo relançado nas bancas pela editora Duetto). Conduzido por preciosas imagens de arquivo entremeadas com entrevistas recentes, ouvimos numa destas o trompetista Wynton Marsalis resumir com precisão que “O real poder e inovação do jazz é que um grupo de pessoas pode se reunir e criar arte – arte improvisada – negociando uns com os outros suas pautas. E a negociação é a arte”.

É daí que surge uma analogia muito boa entre o jazz e a medicina. Numa consulta, da mesma forma, temos duas (e por vezes mais) pessoas que precisam se reunir e fazer com que esse encontro funcione para todos, usando para isso seu conhecimento prévio mas sendo capazes de improvisar conforme os diálogos se desenrolam. É por isso mesmo que o diretor de educação médica da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, Paul Haidet, vem colocando os estudantes de medicina para ouvir música no seu curso, cujo título pode ser livremente traduzido como “Jazz e a Arte da Medicina: Improvisos na Consulta”.

Haidet era DJ na faculdade, e desde cedo percebeu que a comunicação entre médicos e pacientes muitas vezes é truncada, sem permitir uma real conexão entre as partes. Numa entrevista rígida, por exemplo, na qual o médico dirige todo o diálogo por meio de perguntas sim/não, sobra pouco espaço para manifestações espontâneas do paciente que poderiam ser importantes. Haidet inspira-se nos solos de Miles Davis, que em vez de encher a música de notas, deixava pausas para que toda a banda fosse ouvida, sendo seu instrumento um guia, não um tirano. No curso, ele estimula os alunos a praticarem a pausa nas consultas, contando mentalmente dez segundos após o paciente terminar uma frase antes de dizer algo. Já para cultivar o senso de conjunto (ou “ensemble”, como gostam os jazzistas), pede-se aos médicos que passem duas semanas utilizando frases começando com “O que eu estou entendendo do que você me diz é…” em todas as consultas, a partir daí percebendo quando ela se aplica melhor ou não.

De minha parte, não tenho dúvida que deixar espaço para os pacientes e estimular o senso de conjunto é muito produtivos para a conexão entre médico e paciente. Improvisar não significa tomar as decisões de forma desleixada ou irresponsável: ao contrário, tanto na música como na medicina o improviso adequado só é possível quando há uma sólida base de conhecimento sobre a qual se possa criar. Mas estar aberto para improvisar caminhos que só surgem na interação – e que por isso são diferentes a cada apresentação ou a cada consulta – pode transformar a técnica em arte.

ResearchBlogging.org Sayani, F. (2010). Jazz and the art of conversation Canadian Medical Association Journal, 182 (1), 66-67 DOI: 10.1503/cmaj.092028