Você se sente mais feliz no trabalho ou em casa? A reposta depende: se você é mulher, provavelmente é mais feliz… no trabalho! Pois é. Acaba de ser publicado o resultado de um experimento que traz mais informações para enriquecer – e complicar – o debate sobre o até hoje mal equacionado balanço entre carreira e família que desafia a sociedade, em particular as mulheres.

No final da década de noventa a socióloga Arlie Russell Hochschild publicou um livro apontando uma transformação social que borrava os limites entre trabalho e casa, com as pessoas dedicando progressivamente mais energia a seus empregos do que a seus familiares. E isso apesar de continuarem dizendo que a família era prioridade. Não era só o meio que empurrava nessa direção, mas os próprios indivíduos começavam a se sentir mais seguros, competentes e valorizados nas empresas do que nas suas casas.

Pois bem, cientistas americanos convidaram 122 pessoas para medir, ao longo dos dias, seus níveis de felicidade e estresse não apenas de forma subjetiva, perguntando como eles estavam se sentindo, mas medindo as taxas de cortisol, um hormônio que sobe quando estamos biologicamente estressados. Os resultados foram que, a não ser em situações excepcionais, em que a pessoa é muito insatisfeita com o trabalho, por exemplo, de forma geral os níveis de cortisol foram consistentemente mais altos em casa (indicando mais estresse) do que no trabalho, tanto para homens como para mulheres. Essa diferença era ainda maior para quem não tinha filhos – de alguma maneira, apesar do trabalho extra, parece que as crianças aliviam um pouquinho essa resposta estressante do organismo. Mais surpreendente ainda, as mulheres se sentiam mais felizes do que os homens quando estavam trabalhando, enquanto eles ficavam mais felizes do que elas em casa. E só para finalizar, apesar de as pessoas terem o cortisol mais baixo no trabalho do que em casa, tinham a sensação de menor estresse nos dias em que não iam trabalhaar.

É. Complicado. Uma maneira de tentar conciliar essa miscelânea de resultados é levar em conta a velha tensão entre cuidar da casa e do trabalho, especialmente difícil para as mulheres, que entraram maciçamente no mercado de trabalho há poucas décadas (com outras consequências que já tratamos antes nesse texto). Os cientistas imaginam que o que estressa mesmo é conciliar as demandas de uma carreira com uma família – daí os dias em que isso não precisa acontecer, como os finais de semana, serem experimentados como menos tensos. E justamente por a carga da administração doméstica ainda ser prioritariamente feminina, são os homens que se sentem mais felizes em casa.

Resumindo – se nós pudéssemos ficar numa boa só em casa, talvez nos estressássemos menos. Mas precisamos trabalhar, e ficamos sobrecarregados ao ter que conciliar atividades profissionais e domésticas. Historicamente a humanidade evitou essa superposição mantendo os universos (e gêneros) bem separados: o homem trabalha fora e a mulher em casa. Com a maior atuação da mulher no mercado de trabalho, a forma óbvia de reequilibrar a equação é aumentar de maneira equivalente a atuação dos homens no cuidado da casa.

Demora, mas um dia a gente chega lá.

ResearchBlogging.org
Damaske S, Smyth JM, & Zawadzki MJ (2014). Has work replaced home as a haven? Re-examining Arlie Hochschild’s Time Bind proposition with objective stress data. Social science & medicine (1982), 115, 130-8 PMID: 24869785