Quando a publicitária Lilian Oliveira me contou a história de sua reação a um assédio que terminou numa delegacia, reagi como a maioria dos que não são minoria e lhe perguntei se valera a pena. Ela me convenceu que sim, por isso fico feliz em lhe dar espaço nessa semana em que as mulheres invadiram os meios de comunicação numa campanha muito feliz. Quem sabe também te convença. #AgoraÉQueSãoElas

“Não sei dizer ao certo quando me tornei uma feminista. Costumo dizer que sou uma feminista em construção, porque todos os dias luto contra o machismo que está dentro da minha cabeça.

Feminista-machista? Bom, me explico: a revista que eu lia quando era adolescente dizia que se eu fosse “fácil”, nenhum menino ia me querer. A minha escola proibiu o shorts para as meninas e me repreendeu no dia que meu sutiã estava aparecendo. Por muitos anos, ouvi que meu irmão não podia fazer o serviço de casa, porque isso era coisa de mulher. Dentro de uma Igreja, sofri meu primeiro assédio aos 6 anos. Fui covardemente espremida contra uma grade e encoxada por minutos. Esse seria o primeiro de vários assédios que enfrentei calada e completamente sozinha.

Por muito tempo, não enxerguei onde estavam os erros de todas essas situações. Pensava que menina que fica com geral e usa roupa curta é vadia sim. Que se quisesse casar, tinha que aprender a cozinhar e limpar bem. E que, apesar do desconforto, ser assediada era tão “natural” que quase me acostumei a ignorar os assédios. E pior: que se não recebesse cantada alguma, significava que eu não era agradável ao olhar masculino – e que isso era um problemão. De muitas maneiras, tudo o que me foi ensinado e o que vivi, me colocavam numa posição inferior a do homem – e acreditei nisso. Ser mulher é, dentre tantas coisas, ouvir o tempo inteiro o que deve ou não fazer. Nosso comportamento, nossas escolhas, nossa vida é pautada sob uma ótica machista.

Não sei ao certo quando, mas comecei a questionar tudo isso. Além de questionar, comecei a reagir e adivinhem: encontrei resistência de todos os lados.

Cansada de receber cantadas na rua, resolvi enfrentar os assediadores com xingamentos, muito dedo do meio e às vezes, perguntando educadamente: “cara, qual o seu problema?”. Numa dessas situações, o assediador que tinha 65 anos, veio atrás de mim com a sua moto e me deu um belo tapa na cara. Na sequência, tentou fugir me atropelando. Segurei a moto e aos berros, pedi ajuda. Mesmo cercada de gente, só depois de muito tempo fui ajudada por um motoboy. Fomos para a delegacia. Fui desencorajada do início ao fim a fazer o boletim de ocorrência. De alguma maneira, o discurso dos policiais insinuava que a culpa de ter levado o tapa era minha, já que resolvi mostrar o dedo do meio para aquele senhor. O fato de ter sido assediada foi completamente ignorado por todos. Mas sabem o que não foi ignorado? Minha postura. Até hoje ouço piadinhas sobre meu comportamento naquele dia, como se minha reação me classificasse como uma louca-destemperada-barraqueira. Sério, minha gente?

Mas eu já não me importo. Nos chamam de feminazi, loucas, frígidas, mal-amadas. Podem nos chamar do que quiser, porque é com alegria que dizemos: não nos calamos mais. Minha fúria mal cabe dentro do peito. Quero gritar por todas as mulheres vítimas de femínicidio no Brasil, que é o sétimo país do mundo que mais mata suas mulheres. Quero berrar pelo direito das mulheres não ganharem apenas 70% do salário de um homem na mesma posição e com as mesmas competências. Quero prender todos os homens que assediam e estupram meninas e mulheres, estejam elas desnudas ou cobertas da cabeça aos pés. Quero lutar contra um governo que quer ter controle sob o meu corpo de todas as maneiras possíveis – da proibição do aborto à proibição da pílula seguinte.

Eu estou furiosa e quero muitas coisas.
Mas o que eu mais quero é que as mulheres sejam verdadeiramente livres”.

Lilian Oliveira. Redatora e feminista.