Ah, a imprensa. Adoramos culpá-la por tudo de ruim que vemos na mídia – do sensacionalismo à manipulação, tendemos a concordar com Balzac, que disse que “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”. Claro que não é bem assim, já que a imprensa livre é um dos pilares fundamentais da sociedade democrática. Mas quando conseguimos identificar problemas específicos é importante apontá-los. É o que ocorre com a esquizofrenia.

Num estudo recém publicado por pesquisadores brasileiros, a ocorrência de palavras como “esquizofrenia”, “esquizofrênico” e “esquizofrênica” foi levantada nos principais veículos de jornalismo impresso do país em 2008 e 2011. Nas bases de dados consultadas, os termos ocorreram 229 vezes. Classificados em três tipos de ocorrência – médico-científica, policial ou metafórica – eles se distribuíram de forma mais ou menos homogênea, um terço em cada categoria. Sob a capa dessa distribuição aparentemente equilibrada, no entanto, escondem-se algumas distorções importantes.

Em primeiro lugar, esquizofrenia é um diagnóstico médico, e esquizofrênicos são os pacientes que apresentam tal diagnóstico; seu uso como metáforas para “absurdo”, “incoerente” ou “contraditório”, sobretudo em notícias de política e economia, é uma apropriação indevida e, pior, carregada de valoração negativa. Em segundo vem o fato de que já se sabe extensamente que a maioria dos pacientes psiquiátricos, esquizofrênicos ou não, não é violenta, e que os crimes que assustam a sociedade são quase sempre cometidos por pessoas sem doença mental. Dessa forma, um terço das ocorrências do termo se dar nas notícias policiais reflete – e reforça – um preconceito infundado que associa doença mental a violência. Tal preconceito talvez explique porque os pacientes foram retratados de forma negativa em 93% das notícias de 2011, e em 100% de 2008.

Numa cobertura isenta de viéses a palavra esquizofrenia deveria ocorrer muito mais em notícias médico-científicas do que em outras categorias. Mas, infelizmente, centenas de pacientes terem alta hospitalar por melhora do seu quadro não é notícia, mas se um deles mata alguém a manchete é garantida. Se é verdade que no jornalismo a gente nunca lê sobre um avião que não caiu, é hora de mostrarmos que aviões com problemas também podem voar alto.

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Francisco Bevilacqua Guarniero, Ruth Helena Bellinghini, & Wagner Farid Gattaz (2012). O estigma da esquizofrenia na mídia: um levantamento de notícias publicadas em veículos brasileiros de grande circulação Revista de Psiquiatria Clínica, 39 (3), 80-84 DOI: 10.1590/S0101-60832012000300002