BlackMirror-Cartaz

Comecei a assistir Black Mirror há um ano. Na época inundei grupos de Whatsapp e redes sociais recomendando a série para todo mundo. Azucrinei os amigos para embarcarem na viagem da série. Mas só entendi porque fiz isso recentemente, quando uma amiga desistiu de assistir. Segundo ela aquilo a incomodava tanto que tinha necessidade de conversar com alguém, dividir a angústia que cada episódio provocava. Esta aí porque queria tanto que outras pessoas assistissem – eu precisava falar sobre o que tinha visto.

Black Mirror foi uma das coisas mais impressionantes que já assisti. Sabe aquela sensação de quando você é adolescente, começa a desenvolver o raciocínio abstrato e de repente tem contato com algum filme, livro, poema que o surpreende como nunca tinha acontecido? É como se fosse a primeira vez que você aprende a usar o cérebro de verdade e se sente muito inteligente por compreender algo tão profundamente. Foi essa sensação, de surpresa e compreensão – quase uma epifania -, que a série britânica, agora incorporada pela Netflix, provocou em mim.

Dizer que se trata de uma ficção científica não dá a dimensão precisa do que se trata. Os episódios não se passam num futuro muito distante ou em naves espaciais. São nas cidades como as conhecemos, sem carros voadores, sem teletransporte – um futuro próximo. Mas assim como nas melhores ficções científicas, ao retratar o futuro os escritores estão, na verdade, refletindo sobre o presente. O filósofo Baruch Spinoza disse que “O que Paulo fala de Pedro nos conta mais sobre Paulo do que sobre Pedro”. O que Black Mirror fala sobre os que virão depois de nós revela muito mais sobre nós mesmos do que sobre eles.

Imagine – e aqui não vai nenhum spoiler – uma sociedade em que a avaliação recíproca que as pessoas fazem uma das outras nas redes de relacionamento se torne tão importante que passe a ser considerada uma espécie de moeda social. Nesse mundo, se você é mal avaliado e tem uma média baixa de estrelas começa a ter prejuízos na vida, no trabalho. Estamos falando do futuro? Ou dos motoristas de Uber? E pense no que aconteceria numa eleição em que um personagem vindo da TV resolvesse se tornar candidato. Admita que sua estratégia fosse usar de grosseria, linguagem chula, xingar adversários. Ele seria rejeitado pelos eleitores? Esse episódio foi ao ar três anos antes de Donald Trump ser eleito. 

Ao colocar as histórias num futuro muito próximo, mostrando como tecnologias que já conhecemos e comportamentos que já admitimos podem chegar a extremos desastrosos, Black Mirror realmente incomoda demais. Ao nos reconhecermos naquelas histórias nos sentimos um pouco como numa sessão de terapia, quando não gostamos de algo que descobrimos sobre nós.

Um espelho – mesmo negro como são as telas desligadas a que o título do seriado se refere – nem sempre mostram o que gostaríamos.

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Férias para você, não para seu cérebro

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Sabe o que é medicina translacional? É uma área da medicina que procura aplicar na prática os avanços das pesquisas. Não é por acaso que a autora de O cérebo adolescente, Frances E. Jensen (Intrínseca, 2016) vem exatamente dessa área. Neurocientista e mãe de dois filhos, começou a se sentir perdida quando eles entraram na adolescência. Como lidar com os desafios dessa etapa tão complexa? Munida da sua experiência em levar a ciência para a vida real, Jensen foi atrás do que a neurociência já desvendou sobre o cérebro dos adolescentes que fosse útil para lidar com eles. O resultado é um livro com dicas bem práticas, embasadas por grande quantidade de explicações sobre o cérebro humano em geral, e dos adolescentes em particular.