Os jogadores da seleção brasileira comprovaram para a nação inteira algo que a ciência já havia demonstrado: o corpo fala. Mais do que as palavras, e de forma mais precisa do que as expressões faciais, a postura corporal transmite mensagens para os outros e, mais importante, para nós mesmos.

Ao fim do jogo contra o Chile, logo antes de ter início a cobrança dos pênaltis, a torcida ficou temerosa ao observar as reações dos atletas brasileiros: as cenas de jogadores chorosos, cabisbaixos e inquietos não inspiravam confiança nem no mais otimista dos fãs. Se no final das contas deu tudo certo e a seleção avançou, essa sensação de insegurança que repercute até hoje não é mera implicância da impressa. É um fato extensamente comprovado. E preocupante.

O diálogo entre a mente e o corpo não se dá numa via de mão única, como já falamos por aqui; embora nossos estados mentais se reflitam na postura que assumimos, as posições corporais também influenciam a condição psicológica. Especificamente com relação a vitória e derrota o fenômeno é tão arraigado que independe de aprendizado: estudo com atletas para-olímpicos cegos mostra que eles assumem as mesmas posturas que os atletas não cegos diante dos sucessos ou fracassos nas competições. Como se não bastasse, recentemente foi publicada uma pesquisa alemã mostrando que apenas olhando a atitude de atletas de vários esportes, como basquete, tênis de mesa e handebol, pessoas sem conhecimentos específicos do esporte e até mesmo crianças conseguem dizer que está ganhando e quem está perdendo.

Em princípio acreditamos que esses esportistas estariam abatidos por causa da derrota. Mas pesquisas revelam que o contrário também ocorre, e manter posturas associadas à vitória, como queixo elevado e peito estufado, pode ajudar a atingi-la. A psicóloga social Amy Cuddy mostrou empiricamente que instruir voluntários a ficar nessas posições por apenas alguns minutos eleva a testosterona (associada a dominância e sucesso em vários contextos) e reduz o cortisol (associado ao estresse e derrota), o contrário acontecendo com as posturas submissas. E essa influência não é apenas hormonal: aqueles que tiveram a atitude de vencedores foram mais escolhidos que os outros num processo seletivo, mesmo sem que os entrevistadores os houvessem visto anteriormente.

O que nos traz de volta aos pênaltis. A mesma universidade alemã estudou se a postura dos jogadores na cobranças das penalidades influencia a percepção sobre eles e, o que interessa ainda mais, sua performance. E descobriu que evitar de olhar para o gol, manter o olhar baixo e ficar inquieto na cobrança, como querendo se livrar apressadamente da pressão, são atos que transmitem a impressão de fraqueza não só para a torcida mas também para os goleiros. Com isso eles se sentem mais confiantes e esperam um pouco mais pela cobrança, aumentando a chance de defesa.

Nada disso deve ajudar muito se o time estiver jogando mal, imagino. Mas não custaria nada aos jogadores forçar-se a erguer a cabeça e encher o peito. Não somos só nós que estamos vendo. Os adversários também.

ResearchBlogging.org
Furley, P., Dicks, M., Stendtke, F., & Memmert, D. (2012). “Get it out the way. The wait’s killing me.” hastening and hiding during soccer penalty kicks Psychology of Sport and Exercise, 13 (4), 454-465 DOI: 10.1016/j.psychsport.2012.01.009
Furley, P., & Schweizer, G. (2013). The Expression of Victory and Loss: Estimating Who’s Leading or Trailing from Nonverbal Cues in Sports Journal of Nonverbal Behavior, 38 (1), 13-29 DOI: 10.1007/s10919-013-0168-7
Carney DR, Cuddy AJ, & Yap AJ (2010). Power posing: brief nonverbal displays affect neuroendocrine levels and risk tolerance. Psychological science, 21 (10), 1363-8 PMID: 20855902