A figura do louco criativo é recorrente na mitologia dos gênios – como se para alcançar os patamares de criatividade dos grandes artistas e cientistas, só mesmo sendo descolado da realidade. Embora já esteja comprovado que isso não é verdade (apesar de haver um risco maior de doença entre as pessoas criativas e suas famílias, nos períodos realmente produtivos os gênios não estão em crise) a ideia sobrevive. E gera filhos, como a recorrente tentativa de se estimular a criatividade com o uso de drogas. Simulando uma espécie de loucura, imagina-se, as substâncias psicoativas seriam um aditivo à imaginação.

Trata-se de outro mito, que pode inclusive ter efeito contrário. A tentação de apelar continuamente para as drogas acaba levando a quadros de abuso e dependência, que no fim das contas mais atrapalham do que ajudam.

O documentário Chasing Trane, de 2016 (recentemente incluído no catálogo da Netflix), coloca essa questão no centro da vida de John Coltrane, saxofonista que marcou o jazz mundial e cujos cinquenta anos de morte são agora celebrados. Praticamente não se encontram, na história do estilo, músicos que não tenham enfrentado problemas com as drogas. Charlie Parker, um de seus ídolos (e tema do filme Bird, dirigido por Clint Eastwood), fora derrotado pelo vício em heroína, droga comum no meio musical da época, que causa uma devastadora dependência. Miles Davis, que conseguira se livrar do mesmo vício após uma espécie de auto-internação, tornou-se intolerante com seu uso, e expulsou Coltrane de seu quinteto – talvez o melhor da história – ao flagrar uma recaída do saxofonista.

A partir daí o documentário coloca Coltrane num momento chave de sua vida: ou deixa as drogas ou sacrifica sua carreira. Resgatando suas origens religiosas, neto de pastor metodista que era, ele consegue abandonar a heroína. E sua música passa a ter um caráter profundamente espiritual. É assim que surge uma de suas obras máximas, A Love Supreme. Como Saliere fala de Mozart no filme Amadeus, muitos dos entrevistados em Chasing Trane dizem ver em sua música a revelação do divino.

Interessante é notar como essa guinada espiritual é mais a regra do que a exceção entre os dependentes químicos que conseguem ficar abstinentes. Os estudos na área são praticamente unânimes – independente da religião, a presença da espiritualidade, da fé e da frequência a cultos estão todos associados e maiores taxas de recuperação. Talvez isso esteja relacionado à própria personalidade dos dependentes, que tendem a ser intensos, impulsivamente se entregando de corpo e alma. Possivelmente só quando encontram outro objeto que consiga concorrer com as drogas em termos de entrega consigam desviar toda sua energia emocional para outro fim.

Pode até ser outra compulsão. Mas normalmente ela mais útil e menos destrutiva. E no caso de John Coltrane ainda nos possibilitou ter contato com um amor supremo.

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Leitura mental

Em ritmo de jazz, com cortes bruscos, idas e vidas, além de bastante improviso, a graphic novel Coltrane, do artista italiano Paolo Parisi, lançada em português pela editora Veneta, também conta um pouco dessa história. Da infância pobre, marcada por mortes e racismo, chegando ao disputado velório, quando morreu ainda jovem de câncer no fígado. Figuras legendárias aparecem na história, como Duke Ellington, Dizzy Gilespie, e Miles Davis, figura central na carreira de Trane. Racismo, mercado fonográficos, amores e perdas, tem um pouco de tudo ali. É, como o próprio autor diz, uma biografia ficcional e uma homenagem. Tanto ao músico como à música.