Meu avô nasceu no ano da semana de arte moderna de São Paulo, em 1922, e faleceu em 2013, aos noventa e um anos. Com tanto tempo de vida, tendo atravessado o “breve século XX”, tão extremo e transformador em tão pouco tempo, como diz Hobsbawm, às vezes mundo parecia mudar rápido demais para sua apreensão. Lembro de sua reação a cada notícia do avanço das mulheres no mercado de trabalho: “Os homens vão acabar cavando fossa”, dizia entre o perplexo e indignado. “Só trabalho que precisar força física vai sobrar para nós”. Interessante é que, mesmo nessa cosmovisão marcada por sua educação machista ele admitia, implicitamente, que não há diferenças de competência geral entre homens e mulheres. Restariam as diferenças físicas, constitucionais.

Em um antigo editorial da revista Scientific American, se não me falha a memória quando Ulisses Capozzoli ainda era editor, ele também contou uma história sobre sua avó. Cito de cabeça, mas ao que me lembre ela dizia ao final da vida que o mundo em que ela estava não era o mundo para o qual se preparara. O futuro a surpreendera e, desprevenida, ela se sentia deslocada. Capozzoli tecia então loas à capacidade da ficção científica de antecipar o futuro e, de alguma forma, nos preparar para ele.

Penso em tudo isso quando vejo o avanço da tecnologia de informação e a sofisticação dos algoritmos ampliando as competências dos computadores de maneira assustadora, invadindo campos que imaginávamos redutos exclusivos dos seres humanos. Há softwares que criam piadas. A hoje famosa piada “Qual é o assassino que tem mais fibra? O cereal killer”, foi criada por um computador. E no início desse ano um grupo demonstrou que é possível que um algoritmo baseado no Facebook conheça sua personalidade melhor do que seus colegas de trabalho, seus amigos e até do que seu cônjuge. Por vezes, melhor do que você mesmo.

A ideia era simples: dezenas de milhares de pessoas haviam preenchido um questionário online que avalia a personalidade segundo um dos modelos mais aceitos atualmente, o chamado Big five. De posse das respostas os cientistas passaram a estudar o padrão de “likes” (ou “curtidas”) desses usuários, e conseguiram criar um algoritmo relacionando os traços de personalidade ao comportamento na rede social.

Depois os pesquisadores pediram para que pessoas próximas aos voluntários também avaliassem suas personalidades com uma versão menor do mesmo questionário. Quanto mais íntimo o relacionamento, melhor se avaliava sua personalidade (isto é, maior era a concordância entre como a pessoa se avaliava e como o outro a via). Mas algo surpreendente foi constatado: analisando meros 10 “likes” o algoritmo era capaz de definir qualquer pessoa com mais precisão do que seus colegas de trabalho. Com pouco esforço adicional, considerando 200 “likes”, o computador conseguiu acertar mais do que os próprios cônjuges nessa avaliação.

E para ter certeza que essa capacidade de decifrar os sujeitos não era só teórica os cientistas tentaram prever comportamentos no mundo real a partir da personalidade. Coisas como posição política, tamanho da rede e comportamento virtual, uso de substâncias, saúde física, campo de estudo etc. E eis que, dos treze parâmetros avaliados, em quatro deles o algoritmo previu melhor do que a própria pessoa qual seria sua atitude.

Agora, se até a avaliação da personalidade humana passar a ser melhor exercida pelos computadores do que por nós, me pergunto, parodiando meu avô: “O que sobrará para os humanos?” O negócio é ler mais um pouco de ficção científica para ver se continuo me preparando.

Ouça nosso papo sobre esse tema na coluna Ideias no Ar, da Rádio Estadão.

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Youyou, W., Kosinski, M., & Stillwell, D. (2015). Computer-based personality judgments are more accurate than those made by humans Proceedings of the National Academy of Sciences, 112 (4), 1036-1040 DOI: 10.1073/pnas.1418680112