Eleições

Democracia birrenta

Por Daniel Martins de Barros

28/10/2014, 09h49

   

Quando se trata de eleições, ainda somos como crianças. Questionar se vale a pena ser honesto, ficar de luto pelo resultado das urnas, tudo isso indica como nosso funcionamento ainda é imaturo. Se nossa democracia é jovem, deve estar naquela fase da birra.

Passadas as eleições não queria voltar ao tema. Nem mesmo depois de ver as reações hostis tanto de derrotados como de vitoriosos. Já havia antecipado em outro texto que nas redes sociais podemos nos comportar meio como psicopatas, inclusive apontando alguns motivos para o ódio eleitoral em artigo recente. Mas não consigo resistir. Não para falar das brigas, mas para destacar, dentre as barbaridades que andei lendo, aquelas que demonstram que, no fundo, o problema é de uma tremenda imaturidade da nossa sociedade.

Das bobagens que encontrei, assustou-me texto que viralizou nas redes sociais, atribuído a um artista. Não sei se ele é o autor, mas tanto faz – importa mais sua enorme repercussão e a quantidade de pessoa endossando seu raciocínio. Resumidamente ele diz que não devemos chorar pelo resultado das eleições, mas “pelo descuido de sermos honestos“. Segundo o texto o momento não é de luto, mas de reflexão: “Até que ponto vale a pena ser honesto?”.

Vou me abster de fazer comentários valorativos sobre o conteúdo, focando na imaturidade do pensamento exposto. Nossa capacidade de realizar julgamentos morais amadurece com o tempo. Crianças têm parâmetros de certo e errado bem diferentes de adultos. Um dos psicólogos mais importantes do século XX, Lawrence Kohlberg, propôs que esse desenvolvimento se dá em 3 estágios: no primeiro, chamado pré-convencional (comum em crianças pré-escolares), o certo e o errado são definidos de forma egoísta – certo o que lhes traz benefícios e errado o que gera castigos. No segundo estágio, denominado convencional (típico de crianças mais velhas e adolescentes), as pessoas passam a considerar correto o que todos fazem (num primeiro momento), e posteriormente se dão conta que certo é o que a sociedade determina por meio das leis. Finalmente no terceiro, pós-convencional, o adulto percebe que nem sempre as leis abarcam os valores essenciais, mas que certo e errado podem transcender as normas escritas.

Então, quando um sujeito questiona se “vale a pena ser honesto” porque os outros não são, demonstra que não chegou nem ao ponto de entender que existem leis definindo a forma correta de agir. Está ainda no começo do segundo estágio de desenvolvimento moral – é como um pré-adolescente olhando para os lados, buscando nos pares o gabarito da boa conduta.

O segundo indício de criancice foi a banalização do sentimento de luto. De repente, a internet foi coalhada de tarjas pretas, declarando luto pelo resultado das eleições. Não sei quantas dessas pessoas já experimentaram a perda de um ente querido ou de alguma outra coisa que ajudasse a vida a fazer sentido. Essa é uma perda nos faz questionar o sentido da própria existência. Mal comparando, uma criança que perde um brinquedo chora de tristeza, numa dor verdadeira para ela. Seu sentimento é legítimo, pobrezinha. Ela está aprendendo a sofrer aos poucos e deve ser respeitada em sua dor pueril. Mas quem já passou mais tempo nesse vale de lágrimas sabe que há dores muito maiores, e já não chora por qualquer coisa. Respeito quem está de luto pelo resultado da eleição, da mesma forma que respeito a criança que sofre por uma bexiga que estourou.

Se é verdade que nossa democracia é ainda muito jovem, talvez ela esteja atravessando a fase da birra. Tomara. Se for só isso, uma hora passa.

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Kohlberg, L., & Kramer, R. (1969). Continuities and Discontinuities in Childhood and Adult Moral Development Human Development, 12 (2), 93-120 DOI: 10.1159/000270857