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Diga qualquer filme nacional que você tenha gostado e eu digo por que Tropa de elite 2 é melhor.
Mas só posso falar depois que você assistir. A única coisa que dá para contar antes é que, após se afastar do BOPE, o capitão Nascimento torna-se Sub-secretário de Segurança do Rio de Janeiro, quando passa a conhecer o motor por trás das engrenagens policiais. Nesse novo cargo ele continua a sua guerra contra os bandidos, mas vê nascer novos inimigos na figura das milícias, enquanto ainda tenta dar conta de sua cada vez mais complicada vida pessoal. Aos esculachos e às torturas o filme acrescenta novas camadas – econômica, social e política – adquirindo uma complexidade muito maior; assim como Nascimento, Tropa 2 amadureceu, enveredou-se pela política e descobriu que o mundo é um lugar muito, muito complicado. O grande vilão a ser combatido, Nascimento descobre, é o “sistema”.

Quem pensa que isso é só um clichê deveria conhecer o famoso Experimento da Prisão de Stanford, sobre o qual já conversamos antes (leia). Voluntários normais, sem desvios de personalidade, tornaram-se verdadeiros carrascos, agindo de forma maldosa e irreconhecível quando colocados como guardas de uma falsa prisão, cuidando de outros voluntários. Os “guardas” sabiam que não se tratavam de bandidos de verdade, mas ainda assim a escalada de violência fez com que o experimento tivesse de ser interrompido.

“O policial não puxa o gatilho sozinho”, diz Nascimento a certa altura do filme. Philip Zimbardo, o pesquisador por trás do experimento, concorda com ele: “Antes de culpar os indivíduos, a coisa certa a fazer é descobrir em que situações eles estavam que poderiam ter provocado esse comportamento maldoso. Porque não assumir que são boas maçãs em um cesto podre, ao invés de maçãs podres em um cesto bom?” ele pergunta sobre os soldados americanos que torturaram prisioneiros em Abu Ghraib. A influência das circunstâncias, do “sistema” enfim, foi chamada por ele de Efeito Lúcifer (título de um de seus livros), tamanho seu poder de levar pessoas boas a praticar maldades.

Tropa de Elite 2 é sábio o suficiente para saber que as maçãs podem sim ser boas ou podres, mas que não adianta encontra-las se não cuidarmos também do cesto. Não é um filme que agradará a tantos como o primeiro, mas é sem dúvida muito mais cinema.

ResearchBlogging.org Shermer M (2007). Bad apples and bad barrels. Lessons in evil from Stanford to Abu Ghraib. Scientific American, 297 (2), 34-6 PMID: 17894169