Indescritível o terror vivenciado pela apresentadora Ana Hickmann, feita refém e ameaçada de morte por um fã descontrolado em Belo Horizonte no último final de semana. Com comportamento alterado, Rodrigo Augusto de Pádua rendeu o cunhado e a assessora de Hickmann, invadiu o seu quarto e passou a agredi-la verbalmente. Segundo a apresentadora ele dizia que ela era mentirosa, que correspondera aos seus sentimentos mas posteriormente abandonou-o, que duvidara do seu amor. Acabou morto com sua própria arma pelo cunhado de Hickmann.

Embora não seja possível ter certeza absoluta sem mais detalhes, parece muito um caso da famosa síndrome de Clérambault, diagnóstico clássico da história da psiquiatria, descrito no início do século XX pelo psiquiatra francês de mesmo nome. Trata-se de um transtorno delirante, ou seja, aqueles nos quais a pessoa perde – ao menos parcialmente – o contato com a realidade. Aqui o ponto central é a convicção delirante de que a pessoa está envolvida romanticamente com alguém, normalmente um famoso ou famosa. O delírio – essa certeza irreal e inabalável, resistente a qualquer argumentação ou evidência contrária – é alimentado pelo que o paciente acredita serem pistas de que o amor é correspondido. Interpretações distorcidas das coisas que o famoso diz ou faz na TV, nas redes sociais etc., são vistas como meios de comunicação pessoal entre eles. Não é raro que a situação evolua para cartas, mensagens ou tentativas de contato real, por vezes marcada por alguma hostilidade.

É difícil saber a frequência desse problema, pois muitas vezes a pessoa consegue disfarçar, não fica comentando com os outros sobre seu imaginário relacionamento, e consegue manter a vida, trabalhar, ter amigos, como era o caso do fã de Hickmann, descrito como um sujeito normal. Mas nem sempre tais delírios, também conhecidos como erotomaníacos, levam à perseguição franca ao amado.  Esse comportamento, chamado stalking em inglês, é mais comum quando o paciente é homem e o objeto do amor é uma mulher, numa clara influência cultural dos papeis de gênero (estima-se que o quadro seja mais frequente em mulheres; logo, não fosse essa também uma violência de gênero, seria mais comum mulheres se tornarem stalkers).

Longe de estar restrito à esfera da loucura, o stalking pode acontecer com gente como a gente, sem qualquer fama. São aquelas situações quando um não aceita o fim do relacionamento, por exemplo, e passa a perseguir a outra pessoa. Nesses casos, em apenas 20% das vezes há a presença de um transtorno mental. Quando se trata de perseguição a famosos, contudo, entre 80 e 90% dos stalkers têm um diagnóstico, sendo os transtornos psicóticos os mais comuns. Um dos casos mais famosos é o do americano John Hinckley Jr., que chegou ao ponto de tentar assassinar o presidente Ronald Reagan – ele mesmo ex-ator – só para conseguir atrair a atenção da atriz e diretora Jodie Foster, por quem era apaixonado.

Todo mundo que já ficou apaixonado alguma vez na vida sentiu, por um momento que fosse, que seria capaz de fazer uma loucura por causa daquele sentimento. Se você achava uma pena o fato de a paixão acabar, pense de novo: não se pode manter a paixão pela vida inteira – ela é um estado alterado de nossos afetos que turva nossa razão. Para maioria de nós, contudo, esses efeitos são controláveis e transitórios, e quando voltamos à Terra passamos a trabalhar para transformar o que foi paixão passageira num amor duradouro. Infelizmente algumas pessoas se perdem nesse processo, e para elas já não se pode dizer onde termina a paixão e onde começa a loucura.