Seu filho pequeno pode ser um psicopata? Seu sobrinho, irmãozinho? O tema se impõe por conta de uma longa reportagem na revista do jornal The New York Times que repercutiu mundo a fora: “Você pode chamar uma crianças de 9 anos de psicopata?”.

A discussão central é: 1) Se é possível estabelecer esse diagnóstico em crianças pequenas, já que nelas múltiplos sintomas se misturam, dificultando uma classificação precisa; e 2) se existiriam mesmo crianças tão más que chegam a ser incorrigíveis. Para discutir o tema, hoje não recorrerei à literatura técnica, mas aos dois maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

Para mostrar a dificuldade diagnóstica, chamo Machado de Assis. Em seu conto “Verba testamentária” ele descreve uma criança com comportamento tão ruim que só consegue atribuir a uma doença: “Sim, leitor amado, vamos entrar em plena patologia. Esse menino que aí vês (…) não é um produto são, não é um organismo perfeito. Ao contrário, desde os mais tenros anos, manifestou por atos reiterados que há nele algum vício interior, alguma falha orgânica. Não se pode explicar de outro modo a obstinação com que ele corre a destruir os brinquedos dos outros meninos (…). Menos ainda se compreende que, nos casos em que o brinquedo é único, ou somente raro, o jovem Nicolau console a vítima com dois ou três pontapés; nunca menos de um.” “A rua em que ele residia, contava um sem-número de caras quebradas, arranhadas, conspurcadas. As coisas chegaram a tal ponto, que o pai resolveu trancá-lo em casa durante uns três ou quatro meses”. “Mas nem admoestações, nem castigos, valiam nada. O impulso interior do Nicolau era mais eficaz do que todos os bastões paternos”. Com o tempo o menino cresceu e seu comportamento passou a revelar sinais de depressão: “A doença apoderara-se definitivamente do organismo. Nicolau ia, a pouco e pouco, recuando na solidão”. Até que a moléstia foi “descoberta; era um verme do baço”. Logo “a secreção do baço tornou-se perene, e o verme reproduziu-se aos milhões”, até que ele morreu: “Quis ele deixar-se morrer? Assim se poderia supor, ao ver a impassibilidade com que rejeitou os remédios dos principais médicos da corte”.

Claro que a depressão não é causada por um verme no baço, mas a questão levantada no conto é que, mesmo com um comportamento tão disfuncional, no fim das contas o pequeno Nicolau talvez não fosse um psicopata mirim, mas sim que apresentasse sinais de depressão, que na criança não são facilmente identificáveis. É por isso que os entrevistados na matéria do New York Times já receberam literalmente dezenas de diagnósticos diferentes.

Mas existem sim crianças muito más. Cruéis. E incorrigíveis. Chamo agora o médico Guimarães Rosa, que descreve em “Grande sertão: veredas” outro menino mau. “Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou nele, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha pequena que pega; uma vez, encontrou uma crioula benta-bêbada dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três pontos a popa da perna dela. O que esse menino babeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar…” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça – o vôo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a ele do sangue, com cuia de salmoura”.

Aqui a conclusão do sertanejo mostra o niilismo que surge diante de crianças muito más; ao dizer que quando o passarinho se debruça o vôo já está pronto, fica patente que, independente das correções – até brutas – dos pais, o menino se encaminhava para a maldade, inexoravelmente.

Os dois escritores no confirmam então que 1) estabelecer diagnósticos em crianças é difícil – pois os comportamentos são muito variáveis – e também temerário – pois pode representar um estigma impossível de se remover, selando seu destino. E que 2) existem mesmo crianças que parecem predestinadas para a maldade, para as quais não há correção ou tratamento possível. No entanto, como as pesquisas mostram que 50% das que têm comportamentos antissociais acabam melhorando com o tempo, vale a pena manter a esperança, pois parece que só metade dos passarinhos que debruçam acabam mesmo decolando.