Acidentes

Correr ou morrer – ideologia vs. evidências nas Marginais de São Paulo

Por Daniel Martins de Barros

21/07/2015, 13h04

   

Reduzir a velocidade nas Marginais pode - ou não - ser eficaz para reduzir acidentes. As evidências científicas são contraditórias, e falta à prefeitura transparência na apresentação dos estudos e promoção de um debate sério.

Um argumento que frequentemente é levantado para questionar nossa cultura do automóvel propõe o seguinte exercício: imagine que um extraterrestre chegasse à Terra e, reunido os líderes globais, oferecesse uma tecnologia que encurtaria as distâncias, facilitaria o descolamento, aceleraria as viagens, mas em contrapartida custaria a vida de centenas de milhares de pessoas todo ano, causaria incapacidade por acidentes a milhões de terráqueos, envenenaria o ar e levaria a guerras em busca por sua fonte de energia. Deveríamos aceitar esse presente? No entanto, é mais ou menos isso o que ganhamos com a massificação do transporte automotivo.

O argumento pode ser criticado, mas ele aponta algo real: a sociedade vive de fazer cálculos entre custos e benefícios, e a verdade é que aceitamos o custo de várias mortes por ano em troca do benefício de termos os automóveis (seja porque tê-los poupe outras tantas vidas, seja porque bani-los poderia causar outros problemas fatais etc). E é assim para tudo, não só para os carros: eletricidade doméstica, gás encanado, imprensa livre, sigilo médico, vacinação obrigatória – tudo tem custo e benefício, e espera-se que nossos representantes optem pela opção que tenha maior benefício com menor custo.

A regulamentação de velocidade de tráfego deveria entrar nessa mesma lógica: se o único objetivo fosse zerar acidentes, poderíamos adotar o limite máximo de 10 km por hora. Mas tal custo provavelmente seria excessivo. O ideal é calcular uma velocidade que faça sentido do ponto de vista urbanístico e traga consigo um risco aceitável de acidentes – que nunca será zero. Esse debate é passional no mundo todo – existem estudos que mostram uma relação direta entre a velocidade o risco de acidentes; outros mostram que a altas velocidades há mais acidentes fatais, mas não mais acidentes; e não faltam experimentos apontando que não há sequer relação entre velocidade e fatalidade. Uma coisa que parece consenso, no entanto, é que mais importante do que o limite é a uniformidade que conta: quanto mais uniforme a velocidade, menor o risco de acidentes. Por isso a velocidade diferenciada para carros e caminhões foi sendo abandonada ao longo do tempo. Outro ponto em que não há discussão é que engenheiros do tráfego não lidam apenas com rodovias, mas também com pessoas, esse elemento imprevisível e indomável. Assim, para definir uma velocidade razoável e realista o manual Policy on Geometric Design of Highways and Streets, a bíblia da engenharia de tráfego americana, leva em conta algo chamado 85º percentil. É a velocidade até a qual 85% dos motoristas adotam naquele percurso: se de cada 100 motoristas apenas 15 passam de 90 km/h, essa é a velocidade de projeto da via. Fazem isso porque sabem que contrariar frontalmente as expectativas dos condutores é contraproducente – e potencialmente caótico: afastar-se desse número, tanto para cima como para baixo aumenta a chance de acidentes.

Diante de tudo isso, fico com algumas perguntas: qual o 85º percentil das Marginais? Por que adotar limites diferenciados para veículos, se isso se mostra pior? Como a falta de uniformidade entre diferentes veículos, e entre as avenidas que chegam às Marginais e elas afetará a fluidez do trânsito e a destreza dos condutores? Essas e outras perguntas sem resposta mostram que é gritante falta um debate sério sobre o tema em São Paulo. Pode até ser que a medida esteja certa, mas até agora sua fundamentação é mais retórica do que técnica. Quando a prefeitura de São Paulo cita “estudos” para redução da velocidade – os quais nunca apresenta – é evidente que ela está apenas escolhendo as evidências que se coadunam com sua política, numa falácia conhecida como cherry picking, ou falácia da evidência incompleta.

Infelizmente mais uma vez a ideologia se sobrepõe ao debate racional, tornando muito difícil acreditar que a prefeitura esteja buscando de fato encontrar uma solução racional para o problema dos acidentes.

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