Fiquei devendo a segunda parte do artigo sobre alguns caminhos que podemos percorrer quando nosso mundo desaba. Uma das formas, como vimos, é não nutrir ilusões a respeito da vida. (Leia o artigo anterior). Agora falemos do manejo das emoções negativas.

Simplificando bastante: seu chefe malcriado não tem o poder de entrar no seu cérebro e virar alguma chave lá dentro, deflagrando raiva, tristeza ou medo. Seus pensamentos com relação a ele é que fazem isso. Mais ou menos como disse Sartre “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. Para a teoria cognitiva, a sequência de eventos que levam às emoções pode ser descrita assim: ocorre uma situação, ela mobiliza nossa atenção, nós fazemos uma avaliação do ocorrido, e por fim temos a expressão emocional. E em cada uma podemos agir para controlar as emoções.

Como estamos falando de adversidades, partamos do princípio que o pior já aconteceu, não dá mais para mudar a situação. O segundo passo então é agir sobre a atenção. Aqui o que gera emoções negativas são a ruminação e a preocupação. Na ruminação, a nossa mente insiste em lembrar das coisas ruins, mesmo contra nossa vontade – quando nos damos conta lá estamos nós remoendo os pensamentos negativos. Já quando nos preocupamos estamos focados apenas nas consequências ruins que podem acontecer, sofrendo por antecipação. A melhor maneira de enfrentar ambos é com distração: se encontramos algo que capte nossa atenção com mais intensidade – atividades, entretenimentos, conversas – conseguimos impedir ruminações e preocupações, reduzindo o risco de alimentarmos emoções negativas.

Na sequência vem a reavaliação, sem dúvida a habilidade mais importante nesse contexto. Quando algo acontece, avaliamos seus significados de forma automática e inconsciente. É comum que tais avaliações sejam negativas diante de situações adversas – eu sou incompetente mesmo, ninguém se importa comigo, nunca vou vencer, e assim por diante. No momento em que nos esforçamos conscientemente para reinterpretar os significados do que ocorreu, pensando em explicações alternativas, colocando a situação num contexto mais amplo, podemos combater essas avaliações, reduzindo a carga negativa que inicialmente atribuímos à situação. Outra forma de fazer isso é com o distanciamento: ver a situação de longe, adotando a perspectiva de uma terceira pessoa, pode ajudar a ver mais claramente e encontrar saídas. Um exercício que às vezes recomendo a meus pacientes é fingir que a situação está acontecendo com um amigo, e escrever uma carta para ele oferecendo a opinião de quem está de fora. Não é raro nos darmos conta que, apesar de ser ruim, não é o fim do mundo de verdade.

E finalmente podemos não demonstrar as emoções, controlando ativamente a expressão. Os resultados dos estudos variam, mas de forma geral quando adotamos posturas e expressões faciais negativas, tendemos a nos sentir pior. Quando – independente de como estamos nos sentindo – assumimos atitudes positivas, podemos melhorar nosso estado de espírito.

Claro que não é uma fórmula mágica: quando o problema é real e sério, não tem exercício mental que o faça ir embora. Mas essas habilidades não são para resolver os problemas. São para ajudar pessoas, não situações. Porque quando o mundo cai, podemos cair junto com ele ou podemos tentar ficar em pé e reerguê-lo. Ou mesmo criar um mundo novo, ainda melhor.

Ouça AQUI a coluna Ideias no Ar, da Rádio Estadão, sobre esse tema.

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