chegada

Às vezes eu começo um artigo já sabendo como vou terminá-lo, mas às vezes não sei bem onde ele vai dar. Dependendo de como ele se desenrola, volto, refaço a introdução, mudo a ordem das ideias. Nosso raciocínio é sequencial, assim como nossa percepção de tempo e nossa linguagem. Seja da esquerda para direita, da direita para esquerda ou até de cima para baixo, a sensação de uma coisa vem depois da outra – símbolos organizados para criar a escrita – é universal. Ou melhor seria dizer “mundial”? Povos de outros mundos poderiam ter uma abordagem diferente?

Essa é a premissa de A Chegada, um dos melhores filmes do ano – e uma das ficções científicas mais inteligentes que vi desde Contato. Se quando você pensa em ficção científica vêm à mente batalhas espaciais, explosões no espaço, americanos guerreando com aliens, abandone os preconceitos. Dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, com Amy Adams e Forest Whitaker, o filme parte de premissas clássicas do gênero para tratar de conceitos profundos como tempo, cognição, amor, luto. Não por acaso foi indicado ao Leão de Ouro do Festival de Veneza, e escolhido filme do ano pelo American Film Institute.

Na história, gigantescas naves chegam à Terra, e… nada acontece. Os ETs só aparecem numa espécie de janela tentando estabelecer comunicação com os humanos. Amy Adams interpreta Louise Barks, uma professora de linguística convocada para tentar traduzir a língua deles. Ela trabalha junto com um físico – encarregado de investigar os conhecimentos tecnológicos e matemáticos dos visitantes – sob supervisão dos militares. Essa reunião improvável – linguista, físico e militar – por si só já revela como o tipo de linguagem que usamos interfere na maneira como pensamos: os três têm dificuldade para se entender, raciocinam de maneiras distintas, sendo quase tão alienígenas uns para os outros como os seres do espaço. Aos poucos todos – humanos e aliens – começam finalmente a se comunicar, conforme Barks domina a escrita alienígena.

E aí está o coração da história. O filme foi inspirado pelo conto História da sua vida, publicado no Brasil no imperdível livro homônimo (Intrínseca, 2016), que reúne essa e outras histórias do escritor Ted Chiang. Formado em computação, Chiang trabalha como redator técnico de informática, elaborando manuais que traduzam a complexidade dos softwares para o usuário comum. Ninguém melhor que ele para nos mostrar como a linguagem interfere no pensamento. Chiang deixa isso claro na história conforme a protagonista vai se aprofundando na língua escrita dos ETs: ao contrário de nós, eles têm uma escrita circular, não sequencial, e Banks nota que sua apreensão da realidade é atemporal. Passado, presente e futuro não são vivenciados em sequência – a consciência abarca o todo dos acontecimentos no mesmo momento. Imersa nessa forma de penar, quando se dá conta ela mesma começa a recordar do futuro – com enormes desdobramentos pessoais.

Enquanto os aspectos mais especulativos e filosóficos de tais desdobramentos são abordados no conto, as consequências mais pessoais e dramáticas ficam a cargo do filme. E apesar das diferenças no enredo, necessárias ao se mudar a trama de uma mídia para outra, as obras são tão complementares que é uma das poucas vezes nas quais não tive a sensação de o livro ser melhor que o filme.

Como você se relacionaria com as pessoas hoje lembrando do que acontecerá com vocês amanhã? Sempre pensamos que, se conhecêssemos o futuro, poderíamos modificá-lo. Mas a consciência simultânea do todo significa que tudo o que irá acontecer já aconteceu e está acontecendo, sem possibilidade de mudança. Isso nos obrigaria à aceitação mais serena dos fatos da vida, sucesso e fracasso, amor e perda, nascimento e morte.

Quanto a nós, apesar de não nos lembrarmos do futuro, não precisamos esperar as coisas acontecerem para saber que pessoas que amamos morrerão, bons momentos passarão, o azar se alternará à sorte ao longo da nossa jornada. Devemos saber disso não para macular as alegrias presentes, mas para vivê-las o melhor possível, como se recordássemos do dia em que elas passaram.

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Férias para você, não para seu cérebro

livros

Falando em ficção científica, a editora Aleph trouxe para o Brasil as biografias de dois escritores (tão importantes como diferentes) desse que é talvez o gênero literário ao mesmo tempo mais reflexivo e subvalorizado. Eu estou vivo e vocês estão mortos (de Emmanuel Carrère) é a história – romanceada por um também escritor de ficção – de Philip K. Dick, que você conhece de Blade Runner, Minority Report, O vingador do futuro, Os senhores do destino, entre outros. De dependente químico a paranoico, passando por fanático religioso, Dick teve uma vida tão intensa – e às vezes sombria – como as que retrata, e soube como poucos abordar as implicações distópicas do conhecimento e da memória – do passado e do futuro. Já A espetacular e incrível vida de Douglas Adams e do Guia do Mochileiro das Galáxias (de Jem Roberts) traz a história de Adams e de sua obra mais conhecida, narradas paralelamente por um historiador da comédia. Bufão, hilário e muito inteligente, Adams, que também foi roteirista do Doctor Who e autor da série recém adaptada pelo Netflix, A agência de investigações holísticas de Dirk Gently, foi quem melhor reuniu comédia e ficção científica, fazendo rir além de pensar.