Você teve a curiosidade de contar quantas piadas ouviu sobre a derrota do Brasil para a Alemanha? Eu perdi as contas já no intervalo do jogo, tamanha a quantidade de montagens, fotos, desenhos e textos satirizando aquele vexame no momento mesmo em que ele ocorria. Mas o que considero ainda mais curioso é que um ou dois dias depois elas praticamente desapareceram, como se nada tivesse acontecido.

Se as atuais teorias sobre o funcionamento do humor estiverem corretas, esse experimento social em larga escala que ocorreu nas redes sociais ilustra dois fenômenos: 1) como o riso nos ajuda a lidar com conflitos, e 2) no final das contas as pessoas sabem muito bem qual a verdadeira importância do futebol em suas vidas.

Não apenas o riso em si, mas o humor de forma geral, é provavelmente uma forma que nosso cérebro encontrou para lidar com informações ambíguas, que geram uma tensão ou conflito não imediatamente compreensíveis para nós. Rimos quando conseguimos dar um sentido ao todo, conciliando o que parecia incongruente – a sensação de prazer pela resolução do conflito faz parte desse mecanismo. Mais do que isso, o riso é um dos comportamentos mais compartilhados e contagiosos do ser humano, e tem aí também uma função importante no manejo de situações estressantes. Sim, pois rir junto com os outros diante de temas ou situações estressantes ou incertas leva ao compartilhamento das soluções, sintonizando o grupo numa mesma frequência. É possível entender a proliferação de piadas, principalmente a partir do terceiro gol da Alemanha em poucos minutos, como uma forma coletiva de lidar com o absurdo da situação. Críticas à performance ou postura de alguns jogadores, caricaturas da superioridade alemã, tudo isso passou a vir à tona de forma catártica – e divertida – comprovando a tese do comediante George Saunders, “Humor é o que acontece quando nos contam a verdade de forma mais rápida e direta do que estamos acostumados”.

Mas o que isso tudo diz sobre a importância do futebol em geral, e da Copa em particular?

Outra teoria complementar, sobre a qual já falamos na Carta aberta aos comediantes brasileiros e que foi ilustrada pelo furacão Sandy, diz que só tem graça aquilo que de alguma forma nos agride, mas de forma leve. Para que algo nos faça rir é preciso que nos incomode, desde que na medida certa: se incomodar demais, ofende. Mas se de menos, perde a graça: quando o gracejo não toca em algum ponto importante – e doído – ele fica sem sentido. Daí que a extinção rápidas das piadas nos dias imediatamente seguintes ao jogo indicam que o assunto perdera a graça – possivelmente por já não ter qualquer importância real na vida dos brasileiros.

Se parássemos para pensar, provavelmente chegaríamos a essas mesmas conclusões apenas refletindo sobre o tema. Mas demoraria mais e seria menos divertido, pois como disse um dos pais da psicologia, Willian James, o senso comum e o humor são a mesma coisa se movendo em velocidades diferentes.
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Ouça a entrevista sobre o tema na coluna Ideias no Ar, da Rádio Estadão.