Dos muitos desafios que o Brasil enfrenta nesse momento, poucos me parecem tão urgentes como o combate ao Aedes aegypti. A epidemia de dengue bate recordes, e nada no horizonte aponta para um arrefecimento do problema – é bem ao contrário. Agora o mosquito passa a transmitir também chikungunya e zyka, e uma epidemia inédita de microcefalia surge para nos assombrar. O maior problema é que além da incompetência do Estado brasileiro, que vem falhando no combate do mosquito há anos, as pessoas desempenham um papel fundamental nessa luta. O Aedes é essencialmente doméstico, seus criadouros estão em grande parte dentro das casas. Mesmo que os governos façam sua parte, sem mudanças de comportamento em massa da população essa é uma batalha fadada ao fracasso.

É um bom momento, portanto, para entendermos como vários Estados ao redor do mundo vêm colocando a ciência acima de ideologias e se rendendo ao peso das evidências: sabendo que a definição e implementação de políticas públicas dependem muitas vezes da adesão da população, de mudanças de atitudes, países como EUA e Austrália estão incorporando formalmente cientistas comportamentais a seus quadros. Essa lição é mais que oportuna para o Brasil, já que existem várias pesquisas científicas sobre modificação de comportamentos que poderiam auxiliar na criação de uma campanha combate ao Aedes aegypti baseada em evidências.

Desde já penso em ao menos cinco ideias:

1 – Apelo à emoção e à proximidade – campanhas de arrecadação têm mais sucesso quando mostram que a pessoa com necessidade “podia ser você”, que a tragédia poderia ter acontecido conosco. A empatia, característica intrínseca do ser humano, nos faz sofrer quando vemos o outro sofrendo – e quanto mais próxima de nós, psicológica ou geograficamente, maior a empatia. Tentar evitar esse sofrimento (do outro e nosso) aumenta nossa tendência à ação. Proponho então que as campanhas sejam feitas por microrregiões, mostrando casos de dengue que afetaram aquela localidade, os vizinhos das pessoas, sujeitos que trabalhavam perto ou estudavam na mesma escola, trazendo a sensação que “podia ser comigo”.

2 – Uso de recompensas e estímulo à competição – já são abundantes os exemplos de eficácia da gamificação, ou utilização da estratégia de jogos, em mudanças comportamentais. Quando ganhamos pontos por determinada atividade nosso inocente cérebro marca aquela “premiação” como importante, nos levando a querer repetir a dose. Se tais pontos puderem ser transformados em algo tangível, ainda melhor. Que tal medir a incidência de casos novos de debute por bairros, premiando os campeões na redução? A recompensa seria para a população toda daquela região, suprindo alguma necessidade coletiva – um parque, uma praça, uma biblioteca, um posto de saúde.

3 – Feedback contínuo – para qualquer mudança, a medição contínua, com feedbacks constantes é importante para estimular a persistência e ajudar a corrigir rumos. Painéis eletrônicos, como grandes placares, poderiam ser espalhados pelas cidades, mostrando as taxas diárias de casos novos das doenças transmitidas pelo mosquito. A internet e as redes sociais também têm esse poder de dar publicidade e permitir o acompanhamento dos números, devendo ser incorporadas nessa altura. É viável adotar a gamificação aqui também, mostrando um comparativo da região com o total da cidade, com a semana anterior e com as regiões campeãs.

4 – Atuação com líderes locais – A UNICEF relata que diversas iniciativas de saúde, como estímulo à vacinação, aleitamento materno, hábitos de higiene, demostram que usar a influência dos pares funciona. Convocar os líderes comunitários, grupos de pessoas influentes nas regiões, e transformá-los em arautos da guerra ao Aedes tem grande chance de transformar o ambiente. Atitudes de combate ao mosquito seriam consequentemente incorporadas à cultura local, e desleixos como deixar caixas d’água destampadas ou pneus no quintal se tornariam socialmente inaceitáveis.

5 – Pagar pela prevenção – o ser humano responde a incentivos. Por que não usar isso? Os cidadãos poderiam receber incentivos financeiros para acabar com os criadouros dos mosquitos. Bastaria inscrever sua casa para uma inspeção dos agentes sanitários, e as que demonstrassem atitudes corretas de prevenção receberiam desconto em IPTU, conta de água ou luz etc. Melhor ainda se esse desconto viesse na forma de um pagamento em dinheiro, no ato. Em regiões de alta prevalência talvez funcionasse algo ainda mais ousado, num desafio coletivo: se todas as residências de um quarteirão comprovassem ter adotado as medidas preventivas, todos os moradores seriam recompensados.

É evidente que tais medidas custam, e muito. Custam esforço político para costurar iniciativas, para conseguir cooperação entre esferas distintas de poder, custam dinheiro para formar pessoas competentes na implementação das estratégias. Mas estudo recente mostrou que só com a dengue o Brasil gastou 2,7 bilhões de reais em 2013. Se colocarmos nessa conta os custos diretos e indiretos também da zika e chikungunya, sem falar nos custos de curto, médio e longo prazo que trazem as crianças nascidas com microcefalia, esse investimento em mudanças comportamentais com certeza seria custo-efetivo.

Passou da hora de os governantes brasileiros pensarem para além do curto prazo e sem amarras ideológicas. Cobrar deles a criação de políticas baseadas em evidências, e não em meros palpites ou interesses, pode ser um bom começo.

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Mais sobre uma política baseada em evidências nesses textos sobre legislação, saúde e trânsito.