É difícil encontrar o tom correto para cobrir tragédias como o incêndio em Santa Maria. Excluídos veículos sensacionalistas, que fazem da repetição ad nauseum das imagens um chamariz para audiência, nem sempre é simples encontrar o meio termo entre a omissão e o exagero.

O risco de informar de menos é não transmitir a exata dimensão da tragédia, minimizando o ocorrido. Seria desrespeitoso com as vítimas, com seus familiares e com a opinião pública, que merece receber a notícia tão precisa quanto possível. Uma falsa sensação de amenidade poderia até mesmo levar a reduzir as implicações legais para os responsáveis pelo desastre.

Por outro lado, a facilidade com que se produzem e transmitem imagens hoje em dia, aliada à velocidade com que flui a informação, coloca nas mãos da mídia um poder amplificador sem precedentes. Cenas do incêndio, das tentativas de fuga, dos momentos do resgate, do desespero das pessoas, quando veiculadas num looping infinito, podem extrapolar o papel de informar e levar a um verdadeiro desespero contagioso e prejudicial.

Embora a relação ainda seja controversa e siga sob investigação, alguns estudos associam a exposição intensa a imagens de tragédias e o desenvolvimento de sintomas de estresse pós-traumático. De fato, os critérios diagnósticos para tal transtorno incluem a pessoa ter vivenciado ou testemunhado eventos que envolveram morte ou grave ferimento, sejam próprios ou de outros. Embora originalmente isso não diga respeito à transmissão eletrônica de imagens, há trabalhos mostrando risco três vezes e meia maior de desenvolvimento de estresse pós-traumático em pessoas que viram mais de doze horas de notícias sobre os ataques de 11 de setembro.

Isso acontece porque os seres humanos são empáticos por natureza – temos a tendência automática de nos colocarmos no lugar do outro, compartilhando suas emoções. E esse sofrimento conjunto é útil e bom, na medida em que nos mobiliza para tentar aliviar a dor alheia. Torço, pois, para que a imprensa brasileira faça uma cobertura adequada, transmitindo a dor das vítimas de Santa Maria não a ponto de nos levar ao desespero, mas o suficiente para trabalharmos no alívio de sua dor e na prevenção efetiva de novas tragédias como essa.

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Bernstein, K., Ahern, J., Tracy, M., Boscarino, J., Vlahov, D., & Galea, S. (2007). Television Watching and the Risk of Incident Probable Posttraumatic Stress Disorder The Journal of Nervous and Mental Disease, 195 (1), 41-47 DOI: 10.1097/01.nmd.0000244784.36745.a5