A pior coisa que nós podemos fazer após um caso de suicídio é procurar as causas. A família e os amigos próximos sentem-se culpados e presos num looping de ruminações do tipo “e se”. Os colegas estendem o assunto ao infinito perdendo-se em especulações no mais das vezes infundadas. E a sociedade como um todo, perplexa, perde tempo e energia perseguindo os supostos culpados, que mudam a cada estação.

A trágica notícia de duas mortes recentes no tradicional Colégio Bandeirantes, em São Paulo, reacende a busca fútil pelas causas. Se há exatamente um ano estavam todos desesperados com o boato da Baleia Azul ou jogando a responsabilidade nas costas de Hannah Baker, protagonista da série 13 reasons why, nos últimos dias as vilãs da vez são a pressão sobre os estudantes, a busca ensandecida por  performance desde muito cedo ou a suposta incapacidade dos jovens “de hoje em dia” não tolerarem frustrações.

Infelizmente, a cada vez que se diz que algo é causa necessária e suficiente de suicídios o problema piora. Porque aumenta a culpa da família e das pessoas próximas – eles sentem que contribuíram com a pressão, que não notaram a mudança no filho ou no amigo, que foram negligentes. E também porque essa é uma das formas mais eficazes de propagar o suicídio – por meio do estigma.

É fato que existe o chamado efeito Werther, que leva a novos suicídios quando uma notícia é divulgada de forma sensacionalista, expondo detalhes do método, retratando o suicídio como a única saída para aquela pessoa e, como vem ocorrendo nas redes sociais, atrelando a morte a um fato específico. (Por exemplo dizer que alguém se matou “por causa do fim do namoro”, “por causa das notas”, “por causa dos pais” transmite a mensagem, para outras pessoas atravessando problemas semelhantes, que a morte pode ser uma solução). Mas esse  contágio social não a única (e talvez nem principal) força motriz por trás de novas tentativas.

Um grande publicado no Reino Unido há dois anos mostrou que adultos enlutados por suicídio têm risco significativamente maior de atentar contra a própria vida do que os enlutados por outra causa de morte súbita. No entanto isso se deve mais ao estigma que eles percebem – ter a sensação de serem rejeitados socialmente, evitados por amigos, culpados de alguma forma – do que exclusivamente à tristeza. Tanto que aqueles que não se sentem estigmatizadas não têm tal risco elevado.

Isso mostra que tão importante como a prevenção é a “pósvenção” (intervenção com as pessoas afetadas pela morte) do suicídio. Transmitir a mensagem de que sempre pode haver uma saída alternativa, que não há vergonha em consultar os profissionais que nos ajudam nas crises emocionais, divulgar sem preconceitos serviços de suporte como o CVV, são algumas das estratégias preventivas (confira outras aqui). Mas depois de ocorrido o fato, apontar a complexidade desse comportamento, esclarecendo que ele nunca pode ser reduzido a explicações simplistas, alivia a culpa de quem perde uma pessoa para o suicídio e reduz o estigma percebido, prevenindo em grande parte o componente contagioso do problema.

Não existe um culpado. Então em vez gastar energia para saber quem tem culpa, melhor é consolar quem – equivocadamente – acha que tem.

 

Pitman AL, Osborn DP, Rantell K, King MB. Bereavement by suicide as a risk factor for suicide attempt: a cross-sectional national UK-wide study of 3432 young bereaved adults. BMJ Open. 2016 Jan 26;6(1).

 

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Leitura mental

Se alguma vez você já fracassou e se sentiu mal por isso, esse livro é para você. Ou seja, esse livro é para todos nós. Não é por acaso As virtudes do fracasso, do filósofo Charles Pépin (Estação Liberdade, 2017) tornou-se um bestseller na França, vendendo vinte e cinco mil cópias só no primeiro mês do seu lançamento. Porque todo mundo fracassa. Mas em vez de aceitarmos tranquilamente essa que é uma realidade inevitável da vida, nós ficamos frustrados, envergonhados, até mesmo enraivecidos, quando o fracasso nos alcança. Se serve de consolo, Pépin mostra que não estamos sozinhos – de Darwin a Roger Federer, passando por Steve Jobs e Barbara Streisand, mesmo as pessoas mais bem sucedidas do mundo não estão livres de fracassar. Ele vai além desse consolo histórico-biográfico, e nos leva a refletir, com ajuda de filósofos clássicos e contemporâneos , sobre a inevitabilidade do fracasso – e como lidar com ele.