Infância

Cesárea no Brasil, sarampo na Disney

Por Daniel Martins de Barros

10/02/2015, 16h12

   

Movimentos anti-vacina ou anti-obstetras são um preço a se pagar pela - desejável - autonomia dada aos pacientes. Como qualquer valor, a autonomia não é absoluta, e seu abuso pode acarretar prejuízos para todos. Mas deve ser só uma fase passageira.

Você sabia que houve uma epidemia de sarampo na Disneylândia (Califórnia) nos últimos meses? Por causa de pais ideologicamente contra a vacinação – moda naquele estado – um número suficiente de pessoas ficou desprotegida contra o vírus, levando à epidemia. E por falar em ideologia, você já reparou como a discussão sobre cesáreas versus parto normal é coalhada de convicções absolutas, transformando qualquer tentativa de diálogo numa batalha sangrenta? Pois eu acho que essas duas coisas estão relacionadas.

Antes, uma historinha: Conta-se que no interior do país certa vez houve uma epidemia que matou tanta gente a ponto de os cadáveres se misturarem com o dos doentes pela rua. Um médico foi chamado e pediu a dois sujeitos simplórios que o ajudassem e separar vivos e mortos. Ele passava pela rua examinando as pessoas: se gritava “vivo”, a dupla jogava o sujeito numa carroça, para levá-lo ao hospital; se dizia “morto”, o corpo ia para uma vala. Até que em determinado momento ele atestou “morto”, mas o sujeito gemeu com voz fraca: “Não! Eu estou vivo…” Mas os rapazes, jogando o pobre na vala responderam: “Que que é isso? Tá querendo saber mais que o doutor?”

Nem precisa dizer que essa é uma piada muito antiga, remanescente de uma época em que a figura de autoridade do médico era tamanha que poucos ousavam contrariar sua palavra. O destino das pessoas parecia repousar em suas mãos e, mais do que isso, os rumos da sociedade eram em grande parte determinados por essa classe. Detentores de um conhecimento quase secreto, a decisão do médico era soberana, cabendo aos paciente acatá-la ou ficar temerariamente à própria sorte.

Tal arranjo se manteve desde as origens místicas da Medicina até os anos 70 e 80 do século XX, quando as reflexões bioéticas passaram a dar cada vez mais importância à autonomia. Em oposição ao paternalismo, a autonomia dá peso à decisão do paciente quanto ao que é melhor para si mesmo. O médico pode saber as melhores maneiras de reduzir a dor ou aumentar a chance de sobrevivência, mas quem sabe se é bom estar vivo ou sem dor não é ele e sim o próprio paciente. Embora positivo, esse movimento trouxe um primeiro abalo à imagem sacrossanta dos profissionais. Pedestal não costuma ter escada de descida: quando existe uma idealização muito grande de alguém, qualquer lasca estraga o cristal por inteiro. A aura do médico começava a desbotar. Ainda assim, como o conhecimento técnico permanecia hermético, parecia que um novo equilíbrio havia sido atingido. Até que a revolução do acesso à informação desestabilizou novamente a situação nesse século.

Se antes os doutores, como verdadeiros iniciados, eram os donos exclusivos do saber, a partir de agora praticamente todo o conhecimento do mundo está disponível para qualquer um. Foi o que bastou: as pessoas já não sabiam o que era melhor para elas? Pois então, agora não faltava nada, os médicos se tornaram quase dispensáveis. Se parece exagero, vale lembrar que levantamento de 2008 mostrou que 71% das pessoas nos EUA buscavam informações na internet sobre condições clínicas, e quase 40% já duvidara do diagnóstico recebido por ter lido algo diferente na rede. Claro que existem outros fatores, tanto sociais como individuais, envolvidos na recusa de pais em vacinarem seus filhos – além da pura estupidez – e também na obstinada cruzada anti-obstétrica que alguns empreendem. Mas creio que esse movimento de desconstrução progressiva da autoridade médica contribuiu bastante para que se chegasse a tais extremos de negação das evidências científicas.

Mas eu sou um otimista. Se esse movimento histórico for verdadeiro, talvez a sociedade esteja atravessando a puberdade na relação com autoridade da Medicina. O adolescente se torna um rebelde quando percebe ser capaz de escolher seus valores, não precisando adotar o que lhe foi imposto pelos pais. Revolta-se, negando tudo o que aprendeu; mais tarde, no entanto, termina por adotar aqueles mesmos valores, simplesmente com a sensação que foi uma escolha própria. Claro, pois a negação de toda autoridade não se sustenta – quer individualmente, quer em sociedade: recentemente uma maternidade em Goiânia respeitou a autonomia dos pais, que insistiram no parto normal quando a equipe recomendava cesárea. O bebê morreu e a justiça condenou o hospital a indenizar o casal em R$50.000,00 mais uma pensão por 65 anos. Autonomia ma non troppo. Existe abuso no número de cesáreas? Sim. Mas abusar do parto normal não ajuda muito.

Claro que a autoridade absoluta do médico não é saudável. Mas negá-la a ponto de colocar crianças em risco, como no caso do movimento anti-vacina ou anti-cesárea a qualquer custo não é o caminho. Espero que quando passar essa rebeldia a sociedade volte a acatar os argumentos científicos da medicina baseada em evidências. Mas, dessa vez, só porque ela quer.