Caro Luis Fernando Veríssimo,

Acho que você não ficará magoado por estar em segundo lugar na minha lista de gratidão. Esse ano resolvi escrever para gente que marcou minha vida, e a primeira foi a Ruth Rocha. Seria mesmo irresponsável meus pais lerem para mim o Analista de Bagé em vez de Marcelo, Marmelo, Martelo, não é? Mas mesmo assim minhas memórias literárias infantis incluem um livro seu. Lembro claramente de meu pai lendo A velhinha de Taubaté, numa edição verde e branca publicada pelo Círculo do Livro, e rindo alto. “O que foi, pai?” – perguntei. “Ih, essa não dá para tentar explicar”, tentou explicar. Alguma semente de curiosidade deve ter sido planta aí, lá pelos anos 1980. Rir assim, lendo? Aí tem.

Mais tarde, adolescente, comecei a fuçar na biblioteca dos meus pais e descobri seus livros. Foi quase uma epifania. Até então o humor me aparecia nas histórias de forma eventual, acessória até, na maioria das vezes pueril. E justamente no momento em que eu começava a desfrutar das dores e prazeres que acompanham o raciocínio abstrato dei cara com você.

Guardo com saudade aquela sensação de prazer e espanto que experimentei ao ter meus pensamentos dirigidos por caminhos inesperados por meio da linguagem. Mesmo a melhor literatura infantil, assim como a música infantil, tem que ser algo linear: a gente consegue antecipar mais ou menos o que virá a seguir. Suas histórias não. Como numa boa piada os pensamentos eram levados numa direção para serem subitamente surpreendidos por guinadas imprevistas, nos fazendo rir (às vezes alto) com a surpresa. Eram mais como o jazz – outra paixão (em comum) que descobri na mesma época. Saber que era possível fazer a pessoas rirem lendo um livro foi como ter os olhos abertos para uma nova realidade, algo como provar de alguma fruta proibida. Quão inteligente um escritor tinha que ser para conseguir fazer isso, Jesus?

Dentre tantas histórias, muitas das quais até hoje sei trechos de cor, lembro especialmente de O gigolô das palavras. Quando eu achava que já te conhecia, que sabia do que você era capaz de fazer com a gente, li essa crônica num livro de português, no então chamado colegial. A auto-ironia, que beirava o sarcasmo mas mantinha a leveza ao refletir sobre o ofício de escrever me pareceu, à época, ainda mais genial do que antes. Ok, talvez a diferença estivesse em mim, já um pouco mais capaz de decodificar a mensagem. Mas aquilo me fez pensar muito sobre ser escritor.

Enfim, queria te agradecer. Você foi o primeiro a meu influenciar – de forma consciente, ao menos – a querer ser escritor. Eu achei tão fascinante esse poder da escrita que também desejei dominá-lo. Obrigado por acender em mim essa centelha. Estar ao seu lado no Estadão, hoje, é uma honra redobrada. Obrigado por me mostrar que humor e inteligência são inseparáveis. Ele depende dela, mas ela tem nele uma de suas máximas expressões. Só posso agradecer por ter aprendido, assim, que humor inteligente é pleonasmo.

Um grande abraço, pleno de admiração,

Daniel

 

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Leitura mental

O escritor E. B. White disse certa vez algo como “Analisar o humor é como dissecar um sapo, poucas pessoas se interessam e no final o sapo morre”. Não é assim tão verdade – a análise minuciosa pode tirar a graça de uma piada, mas só depois de rirmos dela. E não são poucas as pessoas que podem se interessar sobre o que está por trás de uma boa risada. O livro Humor é coisa séria (editora Arquipélago) do psicanalista gaúcho Abrão Slavustzky, é a prova disso. Ele mantém o humor ao longo de toda a escrita – cronista de longa data, domina a arte da narrativa – mas consegue ao mesmo tempo aprofundar-se na teoria do humor mantendo o interesse do leitor. Psicanálise, filosofia e história são entremeados a anedotas de consultório e casos reais, tornando essa dissecção interessante – e divertida – para todos os tipos de leitores.